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Antônio Xerxenesky

É extremamente difícil para mim falar de rotina de escrita, pois sinto que nunca tive uma. Era possível quando eu recém havia começado, era um estudante universitário e morava na casinha dos pais, tomando Toddynho nas manhãs antes de ir para a aula. Nos últimos anos, como poderia criar uma rotina se é necessário bater ponto no trabalho, chegar em casa e trabalhar um tanto mais para conseguir pagar as contas no fim do mês? Escreve-se quando sobra tempo: geralmente à noite, durante a madrugada. Mas esse também é o período que resta para encontrar amigos, sair para beber ou dançar etc. E sou uma pessoa sociável e danço razoavelmente bem, então inúmeras vezes troquei a possibilidade de uma noite de escrita por uma pista. Há ainda a questão do “cansaço mouse+teclado”, i.e., após passar 10-12 horas trabalhando em frente a uma tela com uma mão no teclado e outra no mouse, a última coisa que a pessoa quer é mais tempo no computador. (Não, não chamo escrever ficção de “trabalho”.) (Não, nunca cogitei usar máquina de escrever ou caneta e papel.)

Escreve-se quando dá. Revisa-se nos intervalos de trabalho. Para a escrita de F, ocorrida entre 2011 e 2013 (mais o período de edição em 2014), eu escrevia nos finais de semana, nas noites vagas, nas madrugadas de insônia. Não é o ideal, longe disso. Mas o preço de aluguel em São Paulo insiste em subir.

Recentemente, desde fevereiro, minha rotina de trabalho mudou: passei a ter as manhãs livres e só bato o ponto depois do almoço. Ainda não escrevi uma linha de ficção em 2014 – só revisei meu romance, que acaba de ser publicado. E agora vivo o momento de desintoxicação do velho para poder começar a escrever o novo. Espero que, tudo voltando ao normal, eu consiga desenvolver uma rotina matinal. Mas as minhas ficções são noturnas, não matutinas. E meu cérebro tende a passar boa parte da manhã desligado. E logo mais uma avalanche de trabalho desabará sobre mim. A quem estou tentando enganar? Provavelmente nunca conseguirei ter uma rotina, nunca escreverei todos os dias, como um ficcionista disciplinado. Acho que está na hora de aceitar isso. Ou começar a jogar na Mega-Sena.

Antônio Xerxenesky é editor do site da Cosac Naify e autor dos livros Areia nos dentes, A página assombrada por fantasmas e do recém lançado F.  

 

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