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Rafael Gallo

Não sei se posso dizer que tenho uma rotina de escrita, no sentido de um certo protocolo ou divisão de horários a ser seguida como hábito. Muito menos acredito que essa rotina, caso existisse, pudesse ser tida como exemplar. Acho que o jeito mais adequado (ou possível) de se organizar para escrever pode variar bastante de pessoa para pessoa, de texto para texto (mesmo se feitos por um mesmo escritor), ou inclusive entre momentos diferentes da escrita de um mesmo texto. Um parágrafo pode ter uma história de criação bem diferente do imediatamente anterior. Tenho passado por isso com meu romance, que nos últimos dois anos me fez atravessar praticamente todo o espectro de estados e práticas possíveis a um escritor: o bloqueio criativo, os êxtases de satisfação, as dúvidas extenuantes, a elaboração de uma estrutura prévia, a demolição dessa mesma estrutura, a escrita sem saber aonde se vai, os momentos de encontrar algo inesperado e valioso, etc etc. Não sei se tenho exatamente uma rotina, mas tenho alguns hábitos comuns, como por exemplo tomar muita Coca-cola e comer chocolate (dizem que o açúcar alimenta o cérebro). Escrevo e reescrevo infinitamente. Sempre penso no centro nevrálgico da história que quero contar, como posso toca-lo da melhor maneira. Como posso desobstrui-lo, retirando as sobras. Me pergunto a todo momento quem são meus personagens e como eles se sentiriam nas situações que crio, ou como essas mesmas situações os moldam. Me pergunto que situações criar para potencializar o sentido central da minha narrativa. Me pergunto. Me pergunto. Me pergunto. Penso nas minhas histórias quase o tempo todo em que estou acordado. Faço anotações em notas no celular, mando outras por email pra mim mesmo às vezes. Dizem que é bom desligar-se da internet; eu, muitas vezes, preciso abrir facebooks e afins para desligar-me um pouco do texto, porque estou cansado demais para continuar. Preciso me distrair às vezes, preciso mesmo. Outro dia escrevi por quatro horas (contadas no relógio), resultado: quatro parágrafos curtos. Não precisa ser nenhum gênio da matemática pra ver o quão árduo pode ser o trabalho e quão baixa a média de produção alcançada que valha a pena. O fato é que a produção criativa passa longe de ser constante. Às vezes escreve-se por horas sem que se crie nada que preste; às vezes passa-se quase o mesmo tempo sem frutos, mas no finalzinho surge algo aqui e ali que vale a pena, logo quando se pensava em desistir e fazer outra coisa. Em outras ocasiões, escreve-se muito em quantidade e qualidade, mesmo quando não se esperava que isso acontecesse. Impossível controlar isso o tempo inteiro, infelizmente. Aprendi que ainda que as coisas não estejam funcionando bem, é melhor ficar ali diante da tela, brigando um pouco mais com as palavras. Só quando a situação ficar grave demais, no sentido psicológico, é recomendável se afastar mais longamente. As emoções variam em uma intensidade tão grande quanto o rendimento, ou maior. Para controlar um pouco os acessos de insegurança ou de histeria – esse transtorno bipolar de escritores – envio meus textos a um colega, em quem confio muito como artista e amigo, para que ele me avalie um pouco. Isso ajuda muito. Avaliação de alguém confiável e chocolate, eis a fórmula secreta. Fora isso, minha única rotina, acho, é que quando sento para escrever, faço-o como se me colocasse diante do meu próprio juízo final: meço minha vida e minha morte nas palavras que realizo. Pra mim, isso é o trabalho do escritor.

 

Rafael Gallo é autor do livro “Réveillon e outros dias”, obra vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012 e finalista do Jabuti 2013 na categoria Contos. O conto Réveillon foi um dos selecionados para a Machado de Assis Magazine e publicado em tradução para o espanhol. Rafael também atua como compositor e professor na área de trilha sonora, fazendo parte atualmente do corpo docente da AIC – Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

 

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