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Alessandro Garcia

Três fatores foram fundamentais para que eu criasse minha “rotina” de escrita: a freqüência de viagens quase semanais no eixo São Paulo-Porto Alegre, durante os anos em que morei na capital paulista; o nascimento do meu filho e o trabalho diário em agência.

Antes, minha produção de ficção dependia de condições e ambiente ideais (alguns diriam, românticas; outros, cerimoniais). Hoje, consigo infringir o princípio de Zadie Smith de proteger meu espaço e tempo de escrita e, tal qual o saudoso Moacyr Scliar, escrevo a qualquer hora e em qualquer condição. Foi um processo algo custoso, mas aprendi a ignorar o burburinho à minha volta, sem qualquer técnica oriental de concentração — e, às vezes, sem qualquer proteção ou motivação auditiva (como Coltrane no fone de ouvido, sempre ótimo) — e me isolar dentro da minha bolha invisível. Muito disto veio da experiência de anos como redator publicitário, dentro de grandes espaços sem divisórias. Foi assim que a balbúrdia dos aeroportos tornou-se nada diante do escudo da minha concentração; e os choros, os brados do Buzz Lightyear e a aceleração barulhenta do Relâmpago McQueen, enfim, o cotidiano da criação de um filho de três anos, também se transformaram em não mais do que meros suspiros entre uma frase e outra. Valorizar o horário de almoço, as horas antes mortas da madrugada, as  viagens de metrô ou ônibus: a não-rotina é minha rotina de escrita.

E, hoje, quando o cotidiano já se tornou um tanto mais sereno, em que consigo dedicar horas fixas para a escrita — entre umas onze e meia e umas três da manhã —, ainda assim posso, sem problema algum, optar por não me trancar no escritório e, sim, escrever na mesa de jantar ou sentado no sofá com o notebook no colo, concentrado na escrita enquanto meu filho brinca à minha volta. É claro que, com uma rotina assim, todos os momentos de possibilidades de dedicação total, como fins de semana e feriados, são presentes, uma antevisão do paraíso literário, do éden do escritor que espero logo poder alcançar. Enquanto este não vem, aproveito sem reclamar a irregularidade das minhas horas. São elas, que, mesmo exíguas, me permitem escrever contos inéditos, honrando convites para coletâneas, mesmo quando a promessa era de dedicação total ao romance (este monstro que me devora há três anos), manter um coluna mensal sobre literatura e cerveja e ainda inventar a auto-armadilha de um livro infantil e a edição de uma revista literária, enquanto aquele mesmo romance me espreita, rancoroso.

 

Alessandro Garcia é editor da revista Flaubert e autor de A Sordidez das Pequenas Coisas, finalista do Prêmio Jabuti e um dos vencedores do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional. O conto “Finados”, presente no livro, foi selecionado para a Revista Machado de Assis, da FBN, e traduzido para o espanhol. Com contos traduzidos para o inglês, finaliza o romance A Zona da Invisibilidade e o livro infantil Números São Muitos Mundos.

 

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