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Natalia Borges Polesso

Eu adoro cheiro de café e a cor do céu na hora exata em que uma linha alaranjada separa a noite da manhã. Embora eu tenha dificuldade para dormir, vou para cama cedo. Minha felicidade é estar deitada antes das 22h. Nem sempre dá. Eu acordo 50 vezes na noite e rezo para que ela passe logo. Não consigo levantar no escuro. Não consigo. Por isso eu adoro cheiro de café e a cor do céu na hora alaranjada. Está claro.

Meu cérebro funciona excepcionalmente bem pela manhã. Ainda na cama, antes de abrir os olhos eu tenho as melhores ideias. Pena que sempre estou num estado de meio sono ainda e raramente lembro as coisas que pensei, mas tenho a incondicional certeza de que foi uma construção genial.

Então eu levanto, faço um café preto e penso em sentar para escrever. Minha mesa está bagunçada: cadernos, canetas, farelo de pão, mancha de xícara, um sutiã, pilha de livros. Dou um jeito. Encaro a janela, olho a cidade, e ali na frente do computador, tento resgatar as frases perfeitas que concatenei minutos antes, ainda na cama. O interfone toca e é meu primeiro aluno do dia. Eu dou aula de inglês. E tento dar aula de francês. Hoje é segunda e eu tenho 8 horas de aula para dar. Na terça são 5. Na quarta são 9. Na quinta são 2 e eu vou para Porto Alegre, porque eu faço doutorado em Teoria da Literatura. Eu acho que tenho uma tese. Na sexta eu fico de ressaca, porque na quinta de noite eu saí para jantar e exagerei na bebida. Eu volto para Caxias do Sul na sexta ainda e chego exausta. No sábado eu estudo, no domingo eu estudo um pouco mais. Folgo também. Duas vezes por semana eu faço muay thai, descobri que é bom bater em sacos de areia. No fim de tudo, penso em sentar para escrever. Meus olhos ardem.

Esqueci de mencionar meus caderninhos e uns lápis que carrego sempre, sempre, onde quer que eu vá. Eu anoto nomes, frases, palavras que gostaria de usar, ideias, parágrafos completos mesmo que sem uma história, eu anoto. Escrevo andando na rua, na parada de ônibus, dentro do ônibus, no meio de uma conversa, no entre-sonho, durante as aulas, na hora do almoço, em festas de aniversário, na fila do caixa eletrônico, no meio do sexo ainda não.

Contudo, toda rotina tem seus escapes, vez ou outra, surge uma janela de tempo, e então eu posso sentar, olhar a cidade e desenrolar as histórias. Nessas horas me dá uma vontade de não escrever. Vontade de não me dar às palavras ou ao significado torto de calcar ou calcanhares. E eu fico ressentida de papel e lápis, e de teclado também, às vezes. E eu penso: vai! nem que saia pela boca mesmo, já que nos dedos a coisa congelou. Risco folha, aperto teclas, torço meus dedos. Mas a cabeça só dança e dança e não se endireita para alinhar as faltas e preencher as falhas. O pior é que fica tudo meio que na pele, meio que nos pelos, meio que numa acidez nervosa, dos lados, lá no fundo da boca.

Acho que a minha sorte é que sou escritora do tipo represa. Vou acumulando prosa, acumulando poesia e de repente, preciso abrir as comportas ou o dique explode. Mas é só vento, desejo e saliva.

 

Natalia Borges Polesso é escritora, professora e tradutora. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade pela UCS e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, é autora de “Recortes para álbum de fotografia sem gente”, obra vencedora do prêmio Açorianos 2013 na categoria contos.

 

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