Pular para o conteúdo

Maurício de Almeida

Em meio a tantas tarefas, é difícil manter uma rotina de trabalho literário. Além desse fato, que acredito comum a quase todos que escrevem hoje em dia, o trabalho criativo tem seu tempo – e é no mínimo frustrante tentar impor o tempo cotidiano ao tempo criativo, pois a produção artística em nada se relaciona a outras demandas. Portanto, em grande medida, e ainda que vez e outra tente emplacar certo padrão ou ritmo, minha produção artística acontece a despeito do que planejo. Mas não pense que isso se deve a iluminações ou inspirações, pois, se depender desses fenômenos (quase religiosos, aliás), a frustração será maior ainda. É preciso disciplina e muito trabalho.

Por isso, em termos práticos, para cada projeto que me lanço (seja um romance, um conto ou uma peça de teatro), estabeleço primeiro uma estrutura geral do que almejo. É parte do processo alterar esse projeto enquanto se produz, mas o primeiro passo é desenhar um esboço geral. A partir dele, me dedico a cada uma das etapas estabelecidas – e nelas, num primeiro momento, escrevo tudo que penso, com total liberdade. É difícil se livrar de amarras, mas tento não me prender muito a detalhes para somente escrever. A reescrita (talvez o melhor momento do processo) acontece depois, quando tenho a estrutura inteira rascunhada. E então se seguem inumeráveis versões e revisões.

Tento ser minimamente disciplinado. Por isso, tenho acordado às seis da manhã e me sento ao computador para trabalhar até às oito, não importando em que estágio estou do processo acima citado. Esse primeiro horário da manhã tem sido ótimo, pois todo mundo ainda dorme e a cabeça está livre de preocupações. Algumas vezes rende, outras nem tanto. Seja como for, às seis estou desperto para ver o que acontece.

Ao longo do dia tento ainda continuar escrevendo, muito embora a cobrança seja menor (ainda assim me cobro muito!), pois o trabalho-trabalho e a vida prática precisam de atenção. Durante a noite, retomo o que fiz no dia e tento me aprofundar, sem, no entanto, horários estabelecidos, afinal é preciso também um pouco de descanso. Às vezes acontece de render mais durante à noite, então escrevo madrugada adentro e descanso pela manhã. Outra vezes nada disso funciona. Nessas ocasiões, tiro um tempo para respirar, viver sem horários e ler aqueles livros aos quais sempre recorro em momentos de vazio.

Por fim, independentemente do que aconteça ou onde eu esteja, ando sempre com um caderno de anotações na mochila, pois sabe-se lá quando um bom tema surgirá.

 

Maurício de Almeida. Campinas, 1982. É autor de Beijando dentes (Record, 2008), livro vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2007 na categoria contos. Participou das coletâneas Como se não houvesse amanhã (Record, 2010) e O Livro Branco (Record, 2012), dentre outras publicações.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Comentários

Manu da Italia em Fabio Rabelo
Fabio Rabelo em Fabio Rabelo
Maria Dolores Wander… em Maria Dolores Wanderley
Cristiano Gabriel em Gregory Haertel
Ana Lucia em Hugo Pascottini Pernet
%d blogueiros gostam disto: