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Adriana Antunes 

Escrevo enquanto o bolo assa. Escrevo enquanto observo o açúcar do doce de abóbora derreter. Escrevo entre temperos picados e a espera do ponto certo para serem atirados panela à dentro. Escrever é um pouco como cozinhar, exige dedicação, cuidado, delicadeza, um toque de ousadia e disciplina. Os temperos como as palavras, guardam segredos, precisam ser medidos, testados, substituídos, dosados com cautela. Precisam marcar presença sem brigar com os outros sabores e, não há satisfação maior para um bom cozinheiro, do que ver o seu prato ser devorado. Gosto de observar o modo como meus convidados comem, a maneira como a língua abraça a comida, o sorriso em bico, os olhos semicerrados e aquele desejo explícito de querer mais. Escrevo assim, nesta busca quase instintiva pela sensação física do outro, testando palavras, reescrevendo histórias, criando personagens, parecidos com aqueles que vi pouco antes, enquanto passava pelo supermercado. Parece fácil, afinal, qualquer um pode ir para a cozinha e se arriscar em meio aquele universo fronteiriço demarcado pelo fogão e pela geladeira, mas mesmo para fazer um simples arroz, é preciso ter paciência, cuidado e dedicação. A escrita também é assim, não é porque gosto de poesia e escrevo lá uns versos tímidos, que posso me dizer poeta. Isto tudo para referendar minha crença na máxima de que não existe inspiração. A escrita é em mim um processo muito consciente e porque sou rígida demais com meu próprio paladar, quando paro para escrever, só levanto quando transpirei o suficiente por aquele momento. Não ouço música, não deixo a tv ligada, fico longe do celular e busco em meus rascunhos as ideias que me ocorreram durante o dia. E as ideias sempre aparecem, em meio ao cumprimento de uma pauta, em sala de aula, junto dos alunos, fazendo supermercado, caminhando pela rua e até dormindo. As ideias são como cheiro de pão, deflagram que há uma padaria por perto, por isso, anoto, depois em casa, com calma, enquanto os pães de queijo dobram de tamanho no forno, espalho tudo sobre a mesa e começo a misturar as ideias, lentamente.

 

Adriana Antunes é jornalista, doutoranda em Letras pela UCS/UniRitter em processos de leitura. É professora de multimídia e escreve em revistas locais. É autora do livro de minicontos, “As Meninas”, que foi finalista do prêmio AGES em 2012, do livro “Poesia na escola”, editado pela Paulus e participante de coletâneas de poesia e minicontos. Além disso, tem dois gatos, Efraim e Capitu e cultiva amoras.   

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