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Patrícia Galelli

Rotina de escrita, né? Acho que experimentei dois processos sem rotina. Um deles, de algum modo, autodestrutivo. E o outro bem atrapalhado.

1) Como uma espécie de indústria subjetiva, a rotina de escrita ocorre dentro do corpo. Eu escrevo internamente por dias, às vezes por meses; aí, numa noite, coloco fones de ouvido e escolho músicas de que não entendo a letra. A todo volume, dou início à expedição do que estava acumulado. Escrevo no ritmo do que estou ouvindo. De alguma maneira, essa tentativa de estourar meus tímpanos me isola do mundo. Assim, nessa torrente, posso escrever por 40 minutos sem parar e, depois de um café, por mais 40 e, depois de outro café, por mais 40; e posso ir madrugada adentro até ter alguma alucinação. Na produção do livro “Cabeça de José” (Editora Nave, 2014), que foi praticamente todo escrito nas férias (eu também bato o ponto para registrar as 44 horas semanais de que sou acometida), fiquei três noites sem dormir – depois não conseguia voltar ao normal, descansar ou comer.

Tudo o que sai desse processo fica detestável, horrível, tremendamente ruim. Aí eu começo tudo de novo, num outro dia, pinçando algumas coisas que saíram daí e inventando as demais.

2) Como uma espécie de indústria subjetiva, a rotina de escrita ocorre dentro do corpo, mas dessa vez escrevo em doses homeopáticas por aí; nesse processo eu vou considerando tudo muito interessante e qualquer coisa que eu faça me dá insight. Então sigo escrevendo cada coisa dessas-muito-especial-e-importante-que-parece-maravilhosamente-incrível em bilhetinhos. E eles vão sendo estocados em bolsos, bolsas, mochilas, gavetas, agendas, livros e tal.

Aí acontece de eu perder todos eles.  Então, numa noite dessas, eu resolvo escrever, mas não sei como começar e nem o quê. Daí rola uma caça aos bilhetes perdidos; fico pensando que eles devem ter sido engolidos por algum buraco negro ou abduzidos por algum atalho da Teoria das Cordas.  Perco muito tempo com isso. Assim foi com o livro “Carne falsa” (Editora da Casa, 2013) – e deve explicar por que demorei sete anos para terminá-lo.

Penso que ainda estou tateando minhas maneiras – e, por serem um tanto catastróficas, podem explicar livros tão curtos e textos tão elípticos.

Patrícia Galelli é escritora e atua também na área de gestão e produção cultural. Publicou “Cabeça de José (Editora Nave, 2014) e “Carne falsa” (Editora da Casa, 2013) e a publicação de artista “Um bicho que” (Miríade Edições, 2015 e 2016).

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