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Débora Ferraz

Uma vez me disseram uma coisa que fez muito sentido: os músicos praticam todo dia. Os bailarinos praticam todo dia. Artistas plásticos, desenhistas… Em geral, os artistas que eu conhecia praticavam diariamente seu ofício, mesmo que não estivessem num dia muito bom. Tinham que praticar para não “perder a forma”. Por que com o escritor haveria de ser diferente?

Quando estou escrevendo, eu tento proteger uma boa faixa de horário do dia para me dedicar somente à escrita. Enquanto Deus não está olhando foi escrito, em grande parte, como se fosse um segundo emprego, mesmo. Era uma rotina sem muito segredo: Acordar, ir pro trabalho (na época eu era repórter do caderno de Cidades de um jornal de grande circulação da Paraíba), sair de lá correndo (tentava não fazer hora extra), comer qualquer coisa, e mais ou menos às 15h30, eu começava com o livro e escrevia até às 20h, 21h, à mão, em caderninhos pequenos. Quando meu cérebro já parecia uma repolho em conserva, depois disso, eu assistia a um filme no dvd ou lia uns capítulos de romance. Dormia mais ou menos 00h00, acordava 6h30, morta de cansada, e começava tudo de novo.  Nos fins de semana, esse “expediente” dobrava. Eu tinha dois “turnos” para a literatura.

Tentando respeitar o horário e tentando driblar o cansaço de ficar na frente do computador, dois fatores jogam a meu favor: um é ter um namorado escritor (então se um começar a protelar o trabalho, fatalmente virá a culpa quando vir o outro trabalhando). Outro hábito foi herdado da rotina de repórter e me ajudou bastante: escrever à mão. Repórter tem que adiantar o texto no meio do deslizamento de barreira, no carro em movimento, debaixo do sol do meio-dia (vocês conhecem o sol de João Pessoa ao meio-dia?). Então eu pego minha caligrafia desenhadinha (meu sonho era ter uma caligrafia mais “garranchuda”), meus caderninhos pseudo-moleskine e escrevo meu romance em qualquer lugar que me ofereça uma assento  e condições razoáveis de concentração.  Já escrevi cena em sala de espera de médico, enquanto tomava chá-de-cadeira de entrevistado, no meio de um encontro com amigos. Eu tirava o caderno da bolsa e começava a escrever. Não por estar inspirada, mas porque não queria perder o contato com aquele universo inventado. O caderno é uma tecnologia fantástica nesse ponto: não descarrega, não some com seu texto quando falta energia, dá pra levar na bolsa sem medo de assalto, não quebra… enfim.

Naturalmente, minha regularidade de funcionária-padrão não era muito um padrão pra como as coisas funcionavam no texto. Tinha dia em que eu sentava inspiradíssima e não saía nada. Tinha dia em que eu sentava de má vontade, certa de que iria perder tempo, que estava muito cansada, muito de mau humor… (você sabe: aquele dia em que o ônibus não veio, que o sapato de sempre fez calos impressionantes e injustificáveis, que todo mundo saiu pra uma festa ótima…) e, justo quando você não estava esperando, você escreve as três páginas das quais mais vai se orgulhar. Então é isso: acho que o ofício de escrever não é como o do agricultor. É mais parecido com o do cara da banca, da vendinha… — E isso quem diz é o Amóz Oz —  Tem dia que não aparece cliente e o vendedor fica lá, sem nada pra fazer. Mas não é isso que importa. A obrigação dele é a de abrir a banca.

 

Pernambucana radicada na Paraíba, Débora Ferraz é jornalista, mestranda em culturas midiáticas e autora de “Enquanto Deus não está olhando”, obra vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2014 na categoria romace.

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