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Carina Carvalho

Posso falar de uma não rotina de escrita. De como me vêm algumas ideias pela manhã, no exame do rosto no espelho, no contato primeiro com o corpo, xampu na cabeça. Tenho muitos (muitos) versos decorados, de escritores que estudei na faculdade e daqueles com quem topo nos bares – queria, talvez, dizer isso a eles. Às vezes saio do banho querendo anotar coisas. Mas o que acontece é que estou sempre atrasada. O início da madrugada é precioso também, porque carrega a matéria de todo um dia e seus humores não previstos.

Ano passado escrevi um livro. Talvez tenha sido o processo mais semelhante ao que se entende por rotina. Escrevia nas brechas do dia. Quando o dia teimava em não cedê-las, eu as criava e conseguia escrever, apenas por ter decidido.

Já não sei há quanto tempo, tenho um rascunho no e-mail chamado “pedaços”. Eu o abro todos os dias ou quase, termino textos, apenas releio ou acrescento mais pedacinhos.Não tenho disciplina. Saboto planos, procrastino, explico para as pessoas e para mim como isso se dá, e nessa explicação há duas vozes um pouco cretinas. A primeira diz “o dia a dia te come, eu sei, benzinha, mas você pode se esforçar”; e a segunda diz, devagar e incisiva, porque sabe que isto é tudo quanto basta: “toma_vergonha_na_sua_cara”. Quando fica muito pesado, como chocolates e ouço alguma música que estimule os sentidos. Ler ajuda bastante. Aquilo de transbordar.

Minha criatividade tem uma queda indiscreta por deslocamentos. Marambaia, o livro, veio em grande parte de uns poucos dias na praia. É como se eu tivesse a tarefa bonita de dar conta do novo que me cerca, embora não me distraia nunca das percepções cotidianas, que se pensam já conhecidas. Me interessam as minúcias – mas aquelas sem ênclise, mesmo. Cada canto da casa e cada canto dos outros, se a eles eu puder chegar com um passinho também miúdo, para fazer observações ajudada pelos meus óculos e pelo que chega à pele. À pele dos sentidos tantos.

Neste depois do livro, o agora que já dura alguns meses, a poesia me vem escrita quando é impossível que meu corpo faça qualquer outra coisa senão ter coragem. É a minha saída ao alcance, e, em direção a ela, se eu for com os braços bem abertos, abraço toda possibilidade e nas mãos não fica mais entendimento sobre o tudo-difícil que se interpõe ao que antecede o texto. 

Assim: eu escrevo o poema. Daí o poema me salva.

 

Carina Carvalho nasceu em 1989, em São Paulo. É formada em Letras. Em 2013 lançou seu primeiro livro de poemas, Marambaia (Editora Patuá). Participa da antologia poética É que os hussardos chegam hoje (Editora Patuá, 2014) e foi uma das selecionadas na categoria de poesia do II Prêmio Ufes de Literatura (Edufes, livro no prelo). Seus textos podem também ser encontrados em algumas revistas on-line e em seu blog: desastresliricos.blogspot.com.

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