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Davi Boaventura

Veja, não quero admitir, mas admito: eu gosto de rotina: gosto de acordar e escrever, almoçar, cochilar e escrever, um exercício físico no início da noite e escrever, e então assistir o programa mais podreiraestupidificante da televisão, ou mesmo passear por sites não recomendáveis, até anestesiar o cérebro e poder dormir tranquilo para recomeçar no dia seguinte e escrever, ah se a vida fosse somente acordar e escrever e comer e escrever eu poderia mandar o mundo quase inteiro se explodir e mesmo assim ainda ser feliz, e teoricamente eu deveria ser capaz de manter esse ritmo já que estou meio em um estado de exceção por fazer um mestrado cuja ideia é justamente escrever e refletir sobre o que se está escrevendo, que é a pós-graduação em Escrita Criativa da PUC-RS, mas obviamente não é fácil: existem distrações demais, existem o WiFi e o Espertofone, esses diabos falseados de anjos, e é preciso lavar, limpar, cozinhar, matar a saudade da namorada via Skype – ela na Bahia, eu no Rio Grande do Sul –, assistir aulas, grupos de pesquisa, contar o dinheiro para comprar queijo para minha pizza de frigideira, então o que tenho feito é me concentrar em escrever pela manhã, às vezes à mão, às vezes direto no computador, com o mundo desligado para não correr o risco de interferências externas, porque, pelo menos para mim, não é uma questão de relógio, tempo de isolamento, é uma questão de imersão, concentração absoluta, do escritor se dedicar com o máximo de intensidade possível ao seu trabalho ao ponto dos sentidos e dos sentimentos e dos desejos se misturarem nas entrelinhas e o conto, o romance – ou, no meu caso, a novela –, saírem impregnados deste momento emocional de criação, o que pode até ser interpretado como uma visão romântica, bastarda, só que não é, ou espero que não seja: estou, ao mesmo tempo em que prezo por valorizar a construção de uma narrativa, apenas negando essa excrecência que é o recalque do sujeito-autor na medida em que ele, autor, pode e deve ser vivo no seu texto em inúmeros níveis, a gradação a depender de cada proposta, seja no estilo, na forma, na estrutura, no tal do conceito, até como autoficção, se for esse o seu fetiche e se você conseguir que se fique bom – no final das contas, o resumo é: o texto existe porque o sujeito existe e, para que o sujeito exista, é preciso que ele se encontre mesmo diante da bagunça alheia clichê moderna, e acontece das mais diferentes formas: eu, por exemplo, gosto de rotina.

 

Davi Boaventura é soteropolitano, jornalista, autor de Talvez Não Tenha Criança no Céu (Virgiliae, 2012), mestrando em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Escreve atualmente a sua segunda novela.

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