Pular para o conteúdo

João Vereza

Imagine que coisa mais fácil. Todo dia o escritor despertaria no primeiro sol, subiria até o viveiro no terraço e escolheria o pombo mais branco. Depois, iria até o altar e sangraria o pobre bicho, murmurando encantos para Mãe Clarice e Pai Machado, para depois enrolar as sobras do pombo em papel de suplementos literários. Pronto. Estaria garantido mais um dia de texto tranquilo. Uma dica: para romances, épicos ou algo mais encorpado, tentaria com um bezerrinho. Não adianta; escrever é um tormento, mas o melhor deles. É esse raio do cursor do word que sempre pisca e nunca sacia a barriga. A voz interna cíclica e incalável, uma gralha esquizoide: “Vai escrever não? / Olha que boa ideia para o texto. / Vai escrever não?” São os pequenos momentos de luz no cinema, no trânsito, no chuveiro e o carpete de trevas na hora chavão do botar no papel. Quanto tem, é ínfimo. Quando falta, é infinito. Claro, existem as técnicas, as pesquisas, as estruturações, as leituras, as anotações. Existe o arquivo do texto que está aberto o tempo todo, mesmo quando faço outra coisa. Existe a constante guerra de ideias; as que sobrevivem mais de um dia, ganham o panteão do caderno. Existe a música que ajuda a entrar no ritmo e mergulhar na sincronicidade. Existe o diálogo com exposições, livros, pensadores, grafites, novela, papo de bar e qualquer canto onde sua produção reverbere. Existe o café, o cigarro, o vinho e tantas outras substâncias que ajudam o seu corpo a relaxar e abraçar o texto. Existe o labor. O embate, o combate, o disparate. Picasso dizia que, quando a musa batia, sempre o encontrava trabalhando no estúdio. E existe, sobretudo, o fator satírico, o imponderável, o inexplicável. Porque escrever não é domar o troço. É construir as cercas e ver o troço pular. É lidar todo instante com a loucura de que dentro de você tem algo maior que você. Pois bem; tente organizar uma rotina nesse mar revolto. Matar uns bichos seria melhor.

 

João Vereza, 34 anos, é carioca e mora em São Paulo desde 2006. Redator publicitário e vencedor do Prêmio SESC 2012/2013, com o livro de contos Noveleletas, publicado pela Record. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Comentários

Manu da Italia em Fabio Rabelo
Fabio Rabelo em Fabio Rabelo
Maria Dolores Wander… em Maria Dolores Wanderley
Cristiano Gabriel em Gregory Haertel
Ana Lucia em Hugo Pascottini Pernet
%d blogueiros gostam disto: