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Susana Fuentes

Não tenho rotina, mas gosto de aproveitar a manhã, corro para o texto nesse instante em que você ainda não tomou as rédeas do dia e pode seguir sem distrações. Ao mesmo tempo, é como se algo tivesse sido trabalhado durante a noite e quisesse se apresentar no encontro com a tela. Só a insistência do meu gato consegue tirar-me dali, nesse convívio de quatorze anos, sete meses e lá se vão muitos dias ele bem sabe como chamar a atenção. Uma vez salvou-me de um incêndio porque aprendi a ler seus sinais. Ele olhava firme em determinada direção, levantei-me interrompendo a escrita e acompanhei sua mirada: labaredas de fogo na máquina de secar roupa. Desliguei o disjuntor e joguei três baldes d’água sobre a máquina, o fogo ainda não havia se espalhado.

Fora esse acontecimento no qual não tive culpa, já deixei muita coisa queimar e até hoje não aprendi que panela no fogo não combina com escrever, mesmo quando você promete a si mesmo: ah, só uma frase a mais. Aí, é batata, depois de muita fumaça, chamada do vizinho, abóbora torrada no fundo da panela e várias linhas das quais você até pode se orgulhar, nada resta ao não ser tentar persuadir o gato que te fita da pia da cozinha… mas eram só algumas linhas, poucas linhas apenas.

Sair na rua depois, sair da história ou desse movimento da escrita é ficar um pouco sem chão. Por outro lado, em alguns momentos é o caminho de lá para cá que me lança à produção, num bloco de papel retirado às pressas da bolsa. De repente tudo se torna escrita, um copo quebra e os cacos de vidro entram em algum trecho da história, mesmo que depois venham a perder-se varridos para outro capítulo ou cortados de vez.

Avanço um passo e outro na página em branco e em algum momento o texto começa a se escrever. Portão, pátio, sino – algo se anuncia e quer estar ali, não sei se a vida, a morte, o silêncio.  A inspiração então é um cuidado, algo se instala como resultado de um esforço – de uma espera, uma demora, um risco. Ouvir vozes deste mundo. Ver o que está aí. Captar o ruído, a brisa, palavras que entram pelas frestas da janela, a respiração da cidade. Na página sonora tudo se torna nome, letra, imagem.

Às vezes é um quadro que me lança ao movimento da escrita, ou uma performance. É como andar de metrô depois de assistir o filme do Wim Wenders para Pina Bausch. Você se flagra numa coreografia, o espaço da cidade salta em volumes, planos, linhas, as pessoas na estação ou na passarela sobre a avenida de carros revelam-se cada uma em seu ritmo. De repente você intui objetos que são parte delas, iPod, mochila, celular, cada acessório salta aos olhos e você precisa anotar tudo o que vê. Outras vezes, começo uma história por pura indignação. Não posso largar o texto enquanto não der vida – e memória – a uma notícia que li, ou a uma cena. E pelos rumos da ficção, algo novo se instala.

Escrever a partir de uma perda, ou movida pelo que me impressiona. Há o espanto diante de coisas simples do cotidiano também. A luz recai em diferente inclinação, um reflexo súbito, uma atmosfera, um ruído de folhas que estalam sob os pés. Ou o estalo das páginas do caderno. Virar a página é por em movimento as linhas, o princípio do cinematógrafo, são as palavras que percorrem as folhas, cada palavra tornada imagem te persegue até que você escreva.

E agora o espaço desta página não deixa de ser uma homenagem ao meu gato em seus muitos dias de vida, que conto a cada manhã porque o danado está doente. Com determinação admirável e recebendo cuidados, inventou de colar-se aos meus pés, sobre os livros no chão, enquanto escrevo.

 

Susana Fuentes nasceu no Rio de Janeiro. Formou-se em Letras pela UERJ, fez mestrado em Literatura Brasileira e doutorado em Literatura Comparada pela mesma universidade. É autora, entre outros, do livro de contos Escola de gigantes, do romance Luzia e da peça teatral Prelúdios: em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, na qual também é intérprete.

 

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