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Camila Doval 

Eu escrevo enquanto percorro a cidade nas mil voltas que o T9 vai dando até me deixar enjoada entre a minha casa e a Puc, a Puc e a casa da minha mãe, a casa da minha mãe e o trabalho, o trabalho e de volta para a minha casa, de vez em quando para a casa do meu namorado que namorar é preciso; escrever é sujeito a intempéries. Eu escrevo em todas as praças que o T9 vai passando e os meus olhos vão se esticando para ficar nelas mais um pouquinho, ali na grama, no solzinho, com este caderno que levo na bolsa e quem sabe um chimarrão. Eu escrevo enquanto escuto a conversa das duas moças sentadas no banco atrás do meu. Elas estão indo trabalhar em casa de família. Elas estão voltando da aula. Elas estão cada uma no seu celular. Elas estão contando com detalhes o que aconteceu na festa de ontem. Elas podem estar no ônibus errado. Eu chego em casa e escrevo na escrivaninha que mandei fazer sob medida para escrever enquanto tento me ajeitar no meio da bagunça da cama. Eu escrevo, também, é claro, madrugada adentro enquanto durmo (quase todas as noites, não em todas, pois em algumas eu escrevo enquanto me acabo no samba até de manhã). Eu escrevo religiosamente nos horários que determino enquanto profano a minha lista de coisas a fazer. Eu escrevo todos os dias uma linha enquanto sou abduzida pela timeline. Eu escrevo enquanto escrevo qualquer outra coisa menos o que eu queria que tu lesses. Ou seja: eu na verdade não escrevo, eu vou vivendo, deixando para quando der, e de repente, dá, bate, paro, explodo em dois mil ou dois milhões de caracteres no meio de uma aula, no intervalo da novela das 9, na faixa 8 do Chico & Caetano, num rio de lágrimas (na tpm não escrevo nada, em qualquer outro choro escrevo muito e jamais — jamais — quando estou feliz da vida), no movimento, no acontecimento, no momento, entre as gentes todas, todas mesmo, porque não escrevo parada nem em silêncio nem me concentro para escrever — eu descentro, eu escrevo enquanto atravesso o cruzamento em que se encontram todas as vozes que me inspiram: a tua, e a tua, e a tua também. Vem tudo de ti, enfim, e a rotina da minha escrita é te observar.

 

Camila Doval é doutoranda em Teoria da Literatura, mestra em Escrita Criativa, autora de Mãos de Amanda (Habilis, 2013) e de uma novela que talvez, quem sabe um dia, com sorte (da Camila) você lerá.     

 

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