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Maria Valéria Rezende

Eu não escrevo pra mim, nem pra crítico nem pra professor, mas escrevo pra alguém, algum leitor. Alguém que não está muito definido, mas se eu não imaginar que há alguém que vai ler isso, ou que se possa interessar, eu não sei escrever. Uma coisa é o prazer que a gente tem ao escrever. Pra mim é uma atividade prazerosa em si. É tão prazeroso brincar com as palavras. O pessoal fica perguntando de onde saem os livros. Eu acho que os livros saem assim de um imenso depósito que a gente tem na cabeça de peças de vários puzzles todas misturadas, que foram nos entrando pelos cinco sentidos através da vida, com todos os tipos de sensações que você tem, que vem de fora, do mundo, que vem de dentro, de seu estômago, do rim, do enjoo que você sentiu, da tontura, de tudo que a gente já viu e já sentiu. Eu tenho certeza: minha cabeça nasceu vazia. Tudo que tem lá dentro entrou. Só que aquilo que você foi absorvendo do mundo, e no mundo eu me incluo a mim mesma – eu não sou o Eu centro do mundo, eu sou um pedaço do mundo, que é afetado o tempo todo também pelo mundo. Eu não sou uma pessoa de jeito nenhum introspectiva, que fica… que fica… Eu jamais poderia fazer auto-ficção assim como muita gente diz que faz, que fica escarafunchando os seus sentimentos mais profundos e não sei o quê. Isso eu jamais seria capaz de fazer. Eu sei lá, quero nem saber quais são os meus sentimentos profundos, não é?, ficar me examinando, como um psicanalista de mim mesma… Eu não sou desse jeito, não sei fazer isso. Não digo que isso é bom, nem que é ruim. Então, pra mim, escrever uma história, um conto, um romance mais ainda, que é mais… vamos dizer que, ao invés de ser um puzzle de quinhentas peças, um romance é um puzzle de mais de duas mil… É ficar catando esses pedaços de quebra-cabeça e tentar montar alguma coisa, porque eu sei que eles são ou podem vir a ser parte de uma imagem que faz uma certa unidade, algum sentido.

 

Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), onde morou até os 18 anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo. Estreou na ficção em 2001, com o livro Vasto mundo. Depois, escreveu o romance O voo da guará vermelha, publicado também na França, Espanha e Portugal, os contos de Modo de apanhar pássaros à mão e vários livros infantis e juvenis com os quais ganhou dois Jabutis. Lança em abril de 2014 o romance Quarenta dias, pela Alfaguara. Outros cantos é um romance que autora deve finalizar ainda neste semestre e que foi contemplado com patrocínio da Petrobras.

Fonte da bio: Cândido – Jornal da Biblioteca Pública do Paraná

 

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