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Demétrio Panarotto

O ato da escrita, no meu caso, é governado pela dispersão. Não tenho hora. Não tenho dia. Alguns dias tomados. Outros esvaziados. Escrevo na brecha entre as demais atividades que realizo. A brecha é o espaço entre aquilo que tem urgência e aquilo que é necessário. Escrevo em meio às urgências e às necessidades da vida; digito uma frase que seja, uma ideia, só para depois, num outro momento, com um pouco mais de tranquilidade, poder mexê-la, ou ficar envergonhado comigo mesmo e me desfazer de bate-pronto. Escrevo, na medida do possível, sempre que posso, principalmente quando tenho a impressão de que não tenho o que dizer. Este é o momento em que a angústia sai das bordas e vem para o centro do corpo, por um motivo bem simples, o texto não anda, mas insisto, insisto, insisto. e espremo os horários. e espremo a vida. e espremo os textos. e me espremo em frente ao computador. e quando o tempo vira tormenta é o momento em que as ideias andam, ganham corpo e depois se esvaziam, mas algo sempre se salva. e vou  até à cozinha. e bebo água. e retorno ao computador. e vou até o banheiro. até à sacada. e rego as plantas (tenho uma pimenteira linda, dedo-de-moça, parece uma árvore de natal; da última vez que contei, ontem, tinham quarenta e quatro pimentas vermelhas, uma quantidade menor de pimentas ainda verdes, umas poucas brigando entre o verde e o vermelho, algumas pequenas e outras tantas flores que ajudarão a garantir a harmonia por mais alguns bons dias), e tomo um chá. e retorno ao computador. e abro um arquivo. e abro outro. e fecho tudo. e abro de novo. e leio as notícias que já li. e revejo os sites que me interessam. e os que não me interessam. e caminho pela casa. e pego um livro que deixei em algum lugar ontem. e leio. e me empolgo com a leitura. e solto o livro num outro lugar. e vou à cozinha de novo. e desligo a água que fervia mais que o necessário. e como uma fruta. e ou uma bolacha. e lavo a louça de ontem. e a de anteontem lavo junto. e no retorno pego uma roupa suja que ficou pelo chão que nem ao menos sei o motivo pelo qual está na metade do corredor. e escrevo em meio a essa dispersão. e coloco algumas linhas no papel. e que se transformam em outras. e corro até o banheiro para desligar o chuveiro que ficou gotejando. e volto para deletar o que escrevi. e para escrever de novo. e do nada me concentro. e o mundo para. e as horas passam, passam, passam. e depois faço uma leitura rápida antes de sair. e termino de me arrumar. e coloco o calçado com um olho no computador e outro no cadarço. e achando tudo isso insano. e desproposital. e desnecessário. e destrambelhado. e desestimulante. uma briga danada entre aquilo que fica suspenso, e que me agrada, e aquilo que ganha raízes, e que (por outros motivos) me agrada também. e vírgula,

Demétrio Panarotto nasceu em Chapecó-SC, em 1969. É doutor em Literatura e professor universitário (UNISUL). Publicou: “Borboletas e Abacates” [Argos, 2000]; “Mas é isso, um acontecimento” [Editora da Casa, 2008, poemas]; “15’39”” [Editora da Casa, Alpendre, 2010, poemas]; “Qual Sertão, Euclides da Cunha e Tom Zé” [Lumme Editor, Móbile, 2009, livro/ensaio]; “Crônica para um defunto” [dengo-dengo cartoneiro, 2013, poema]; “O assassinato seguido de La bodeguita” [Butecanis Editora Cabocla, 2014, contos]; “Poema da Maria 3D”[Coleção Formas Breves, e-galáxia, 2015, e-book]; “Ares-Condicionados” [Nave Editora, 2015, contos]; “A de Antônia” [Miríade, 2016, infantil]; “No Puteiro” [Butecanis Editora Cabocla, 2016, poemas]; mais alguns discos e alguns filmes.  Vive em Florianópolis-SC.

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