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Natasha Centenaro 

Consigo, de forma praticável, me entender com o espaço, conciliar as condições, ou falta delas. Morei em um apartamento cujas janelas margeavam uma das mais audíveis avenidas de Porto Alegre, a Protásio Alves, e conseguia escrever em meio à fúria de motores de carros, ônibus e ambulâncias. Muitas. Não conseguia dormir, é verdade. Mas a insônia faz parte da tríade de “ites” que me acompanha: rinite, gastrite, insonite – todas crônicas. Esta última, para ser precisa, desde o primeiro dia fora do útero materno: nasci às 21h15min e queriam que eu dormisse à noite, paciência, recém acordara. Por isso, a noite e a madrugada são os meus períodos favoritos. Para tudo.

O impraticável, sem dúvida, é o tempo. Penso: vou me sentar e em duas horas escrever. Duas horas para alcançar o que está entre as minhas orelhas e seus pequenos brincos de pérolas, duas horas para ruminar o que está entre as orelhas e os dedos sem anéis, sem esmalte e com pedaços de cutículas arrancadas, duas horas para me ajeitar na cadeira, pegar copo d’água, ligar o notebook, abrir o editor de texto, ou colocar grafite na lapiseira e rabiscar as páginas, duas horas para enrolar o suficiente até as narrativas mentais escorregarem como palavras, personagens e tramas. E deixarem de ser narrativas mentais. Para se tornarem narrativas. O que se pensa não é o que se escreve. E o que se escreve à mão, por vezes, não é o que se digita. Foge. Resiste. Tenta-se. Duas horas para ler o que foi escrito. Intermináveis duas horas para se reler e revisar. E mudar quase tudo. Mas há a necessidade do último caractere, que seja o ponto, mesmo não sendo o final. Ou o que tu gostaria que fosse. Duas horas.

Não poder praticar essas duas horas em reais duas horas revela, inclusive, o fato de se ter pouco tempo para o exercício da escritura. Vejo isso como uma queixa comum à maioria dos que relataram suas rotinas por aqui e fora daqui. Por enquanto, estou escritora (pleiteando vaga, em busca do sistema literário, traçar o caminho da publicação das obras, chegar às editoras e, por fim, o público-leitor – e isso, também, pode ser um anúncio). Quando não estou jornalista, revisora, nas aulas do doutorado, fazendo artigo ou lendo para a tese, quando não estou assistindo teatro e escrevendo críticas. A profissionalização do escritor é mais do que status a ser conquistado, é tempo ganho. Utopia, esperança, causa política ou simpatia, seja lá o que for. Moacyr Scliar disse em entrevista que demorou anos, mesmo após livros publicados e reconhecimento, em responder, em cadastros de hotéis, à pergunta profissão como escritor.

Para mim, o melhor lugar de se ter ideias, solucionar problemas de histórias em andamento ou repensar personagens é o banheiro. Sanitário, seja educada, toalete como preferir. Durante a escrita do romance-peça, encontrei a estrutura e delineei as características dos cinco personagens tomando banho. Minha intenção não era juntar romance e peça, mas uma peça que integrasse o romance e um romance sobre a peça. Escovando os dentes tive o insight do enredo da peça. O título foi difícil. Requisitou esforço digno de visita prolongada a esse aposento. Ainda é um problema às minhas narrativas mentais. O Luiz Ruffato me disse para voltar à ideia original, porque esse último era muito explicativo, não é título de trabalho acadêmico, é literatura.

Uma vantagem da escrita dramatúrgica é conseguir subverter, em certa medida, o poder de autoisolamento do autor. Não é que não existam dramaturgos de gabinete, há uma porção deles em atividade, mas com a ampliação dos processos colaborativos, o texto passa a ser coletivo e também é dos atores que contribuíram com improvisos e relatos, do diretor e sua opinião, da reescritura diversas vezes após as cenas elaboradas nos ensaios. Considero fundamental uma experiência assim. O meu próximo desafio é a montagem final de uma oficina de teatro para adolescentes e vou abusar do colaborativismo, ouvindo os jovens atores e suas ideias, me apropriando das cenas de exercícios, e sabendo por eles como criar e escrever esse universo distante de mim alguns anos e músicas e filmes e games.

Era para ter sido dois mil caracteres em, no máximo, duas horas.

 

Natasha Centenaro é mestre em Letras – Escrita Criativa pela PUCRS, atualmente é doutoranda em Literatura Comparada pela UFRGS. Integrou a coletânea do Prêmio Lila Ripoll de Poesia – 2010, da AL/RS. Dramaturga de O retrato de Laura (1.º lugar no II Festival de Esquetes da CCMQ) e colaborou em Sonhos [Im]possíveis (premiada no 2.º Montenegro em Cena e no 2.º Festival de Teatro de Gravataí e indicada ao Prêmio Revelação do Açorianos de Teatro – 2013). Venceu o Prêmio Literacidade 2014 Jovem autor com o livro de contos Aquela e outras mulheres, também finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2013-2014. Autora de Histórias de silêncio para encenar – Romance-peça. Tem textos publicados em antologias, revistas e periódicos. 

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