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Roberto Menezes 

Minha rotina de escritor é escrever o tempo todo, aqui, ali, daqui a pouco, já já. Escrevo em caderno, guardanapo, celular, computador. Não tenho horário. Se eu precisasse algum dia na vida bater ponto, ia pirar, não fico longas horas de frente a uma tela em branco, não consigo, minha hiperatividade é cruel: só meia hora, boy, levanta daí, vai jogar o teu ps3. Uma estratégia pra não me jogar ao ócio é oscilar a escrita com meus estudos em Física. Sou pesquisador do CNPq e publico um número considerável de artigos. Escrever e calcular podem até parecer coisas distantes, mas não são. Nos dois casos, preciso focar pra evoluir e me aprofundar, a maneira como concateno as ideias são semelhantes e complementares.

Acordo com as ideias na cabeça, vou dormir com essas e outras. Frases a melhorar, personagens pra criar, cenas pra descrever, diálogos pra… blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá, quase chego a ouvir o disco rígido do juízo girando a não sei quantas mil rotações por minuto. É claro que me sinto pressionado, de vez em quando bate a angústia por não dar conta e perder um monte de ideias. O que posso fazer se a consciência é uma maldita peneira? Tem dia que elas ficam me instigando: cara, vai lá, escreve, a gente não vai ficar assim clarividentes até quando tu quiser. Mas não ligo não, de uns dias pra cá comecei a acreditar que ideia morta é adubo pra outras nascerem, é só continuar a escrever que surgem versões dois ponto zero das anteriores.

A única preocupação é que essas demandas na mente se calem de vez. Me apavoro quando acordo em silêncio, cadê você ideia tagarela?, chegue cá que quero lhe usar. É melhor a reclamação de fila do SUS do que a calmaria de cemitério. Ser ativo é a saída. Leio, leio livro, leio mundo. Estudo, pesquiso, bebo, converso e corro.

Por falar em correr, corro uns quarenta quilômetros por semana. É bom pra saúde, pra alma, isso e aquilo… só que devo confessar que, pra mim, a corrida é mecanismo pra organização da gritaria da minha mente de uma maneira bem eficiente. É uma maravilha correr olhando pro nada. Pequenos mind-blowings acontecem depois de meia hora de suadeira. Aí tenho que decidir se continuo a correr pra aproveitar desse estado, ou dou meia volta pra colocar tudo no papel.

Com os anos percebi que quanto mais a gente escreve, mais fácil se torna o processo de escrita. O que pode levar à falácia de se contentar com métodos, preceitos de cartilhas já absorvidos. Sem cavar novos poços, um dia a fonte se esgota, e o escritor se torna uma repetição de si.  Todo escritor deve ser escritor vinte quatro horas por dia, já que escrever não é só colocar palavras no papel. Colocar palavras no papel é só consequência, e cada um que escolha como, onde e quando fazer.

 

Roberto Menezes é paraibano nascido em 1978. Doutor em Física e professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba e foi membro fundador do Núcleo Literário Caixa Baixa. Tem quatro livros publicados Pirilampos Cegos (romance), O Gosto Amargo de Qualquer Coisa (romance), Despoemas (contos) e Palavras que devoram lágrimas (ou a felicidade cangaceira) (romance). Foi vencedor das duas edições do Edital Novos Escritos da Prefeitura Municipal de João Pessoa (2007 e 2008) e do Prêmio José Lins do Rego da Funesc do Governo do Estado da Paraíba (2011). Tem contos publicados nas coletâneas Histórias de Sábado e Contos de Sábado, do Clube do Conto e Internautas, da Editora Melhoramentos.

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