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André Luis Silva

Sempre uma caneta no bolso. Pelo menos uma. E não precisa ser uma caneta elegante, das mais refinadas. Não. Minha única exigência: que seja das que liberam tinta. Isso. Bastante tinta. O motivo? Para que eu possa me sentir escorrendo e manchando. Para mim, não existe maior prazer.  Borrar folhas amareladas com ideias, fragmentos de vida, cheiros. Aprisionar e me embriagar com um momento – contrariar o que é fugaz – e guardar, tudo o que for possível guardar, no meu depósito literário.

Bom, esse é o apelido do caderninho surrado que substitui a carteira (quase sempre vazia) no fundo de minhas calças. Depósito literário… é de Tchekhov essa expressão e é bem apropriada. Utilizo-o como uma arapuca para caçar palavras – não escolho momento nem lugar – e me entrego e me divirto e sofro nesse fazer como um viciado. Depois, transfiro esse amontoado disforme para pequenos papéis autocolantes, e ao poucos – e em pedaços – eu os disponho pelas paredes do meu quarto. Monto um varal de frases e conceitos segundo uma lógica confusa, mas que orienta de maneira efetiva os meus passo e, por fim, obtenho as peças do meu quebra-cabeça. Assim nascem as minhas histórias.

De repente, me exponho e me faço soar por lábios que digo não serem os meus. É como me confesso. Sim, me confesso e, ainda que meu propósito seja a identificação, o estranhamento e a catarse alheia… se escrevo, escrevo mais porque preciso. Tenho que escrever. Sozinho, ou acompanhado, sobre o que é grande, sobre o que é pequeno. Tenho que escrever. E quando leio o que escrevo, mesmo que me irrite profundamente às vezes essa minha falta de tato, redescubro a minha vocação. Então, não tenho mais medo.

Ah, essa minha necessidade estranha! Um “precisar” que impõe constância, mas não obriga rotina; que liberta ao tempo que me emoldura. Enfim, sou do tamanho daquele perfil que a minha caneta traça.
André Luis Silva é soteropolitano, ator e dramaturgo. É de sua autoria: Escavadores, texto publicado e um dos vencedores do III Concurso Jovens Dramaturgos 2013 (nacional) promovido pela Escola SESC de Ensino Médio, incubadora cultural e O Preceptor (2014), romance publicado pela Metanoia Editora.

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