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Carlos Henrique Schroeder 

Com dois filhos pequenos e uma agenda de trabalho bem apertada, ou me disciplinava ou não teria tempo para escrever e ler. Então acordo antes das seis horas, e sete já estou no escritório, onde escrevo e coloco as leituras em dia até umas nove horas, quando entra a rotina da empresa.  E quando estou lá, com a luz bruxuleante e o silêncio que nos limpa do que não é faca, como diria João Cabral, é que me dedico febrilmente a teclar.  Eu escrevo muito, mas corto muito também, setenta por cento do que escrevo eu deleto: capítulos viram parágrafos. Livros de duas centenas de páginas viram setenta, oitenta páginas, puro masoquismo. Talvez pelo fato de eu ler mais poesia do que prosa, ultimamente, ou pela garra afiada de contista, que nunca abandono, sou um cortador de palavras. Mas no gesto da escritura o processo é muito orgânico: meu romance recém-lançado, o “As fantasias eletivas”, por exemplo, nasceu de um conto meu, mas sempre fiquei com a sensação de que não havia exorcizado de vez esse tema, de que não havia ainda acertado minhas contas com aquela história. Então ao redor dessa narrativa surgiram algumas obsessões, um punhado de imagens, outros personagens, e a necessidade de torcer a narrativa, e veio o romance. Sempre vejo meus livros como móbiles, e não como algo plano, então esse livro é, na verdade, muitos livros. E o que era para ser um romance sobre o desejo numa cidade turística, acabou mais focado na solidão, na escrita, com um personagem forte como a travesti Copi surgindo e tomando conta do livro. Tem uma parte que a Copi desabafa, sobre escrever: “Mas só escrevo coisas tristes ou incompreensíveis, sobre morte, sexo, gente que sofre, os rancores do mundo, e nem tenho leitores (Ratón, talvez você tenha razão, para que perder tempo escrevendo se ninguém lerá?). Sou só um traveco contador de pequenas histórias sem sentido. Então não se preocupe, mãe, meu legado será o que fiz com a bunda, e não com a caneta. Dirão assim: essa mexia, essa mexia. Mãe, sempre quis te dizer uma coisa: escritores escutam estas vozes, estas inúmeras vozes, estes personagens que se criam do nada, de uma referência ou cena qualquer. Trabalham com a empatia, se colocam no lugar dos outros, sentem a dor dos outros, sabem onde está a imagem, no que se desdobra uma imagem. O problema é que, quando a nossa própria imagem se desdobra, você enlouquece. Também sou esquizofrênica em meu corpo, em meus quadris, e você nunca entendeu. Sou louca de corpo.” Nunca escolho o caminho mais fácil, gosto de me desafiar, meus narradores são sempre desafiadores para mim. Agora estou trabalhando no “História da Chuva”, espero entregar a última versão no final do ano para a Record. Reviso incansavelmente, é um livro difícil, cheio de camadas e que necessita de uma pesquisa intensa, mas estou animado, nada como um desafio após o outro, ou uma palavra após a outra.

Carlos Henrique Schroeder nasceu no da 9 de junho de 1978 em Trombudo Central, em Santa Catarina. Publicou vários livros, entre o conto, o romance e a dramaturgia, com destaque para as seguintes obras: o romance “Ensaio do vazio”, lançado em 2007 e adaptado para os quadrinhos em 2012 pela editora carioca 7Letras. A coletânea de contos “As certezas e as palavras”, obra vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2010. O romance “As fantasias eletivas”, lançado no Brasil em 2014 pela editora Record e na Espanha em 2016 pela Maresia Libros. O livro também foi indicado nos vestibulares UFSC, UDESC e Acafe no ano de 2016. Eleito o melhor romance do ano de 2014 pela Academia Catarinense de Letras e semifinalista do prêmio transnacional Oceanos Itaú Cultural. Outro destaque é “História da chuva” (Record, 2015), obra contemplada pela bolsa Petrobras Cultura. É editor-associado da Revista Pessoa, de São Paulo, única publicação destinada à divulgação da literatura lusófona no país, desde 2014. Assina a coluna de literatura do jornal Diário Catarinense, todas as quartas-feiras, desde 2014.

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