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Andréia Pires

Escrevo quando dá. Quando não me afogo nas coisas dos dias: os trabalhos pendentes, as cobranças institucionais, as saudades, as contas por quitar, as frustrações, o sono acumulado. Quando consigo me estabilizar entre agonias, escrevo. Foi o tempo em que escrevia para expulsar de mim mal estares, a dor ardida entre o umbigo e o peito ou a zoeira mental parecida com voz vinda de longe. Se já escrevi para aprender a ter calma e a domar pensamento aflito, hoje escrevo pelo prazer da invenção de realidades diferentes da minha, onde de alguma forma entro e saio e ajo sem ter que dar satisfação a ninguém. Ultimamente, sinto que escrever é aquela sensação de alívio que dá depois que a gente põe a cabeça para fora da janela e grita alto alto alto e então respira. É vida.

Sou dessas que precisa de isolamento, da porta fechada, da música baixa, da mesa arrumada, canetas e papéis organizados (de preferência tudo na gaveta), a lixeira recém-esvaziada, apenas a folha em branco do word olhando de volta, extrema ordem do lado de fora para o barulho e a bagunça de dentro terem condições de se acomodar em texto. Não uso os cadernos e blocos que carrego na bolsa em anotações literárias, para que não se misturem com a lista do supermercado ou endereços de imóveis à venda ou resumo de reunião que passou (a lógica da mesa arrumada…). Acho um charme quem consegue escrever em cafés, bares e restaurantes. Não é para o meu bico, minha concentração vira vontade de comer em lugares assim.

Não fico ruminando uma ideia muito tempo. Para não sofrer. Ou a história vai para a tela, inteira, ou deixo-a ir embora. Dificilmente retomo embriões de conflitos, acho que é por isso meu apego aos contos breves. Devo sair dessa zona de conforto em algumas semanas, quando entrar, de fato, no romance-tese que prometi dar conta no doutorado (e já estou atrasada). Não tenho noção de como vai ser, mas sinto urgência de um mergulho, uma imersão completa na ficção que virá. O meu corpo tem pedido esse tempo mais longo e fundo fora do relógio, que eu me jogue com medo e tudo nessa narrativa longa e pare de brigar com o expediente de segunda a sexta.

Participo de grupos de pesquisa, de escrita, de oficinas literárias e de projetos de escrita coletivos, porque me faz falta conversar sobre processos criativos e questões literárias com quem também escreve. É incrível como a minha produção depende diretamente do meu humor e o meu humor do clima. Reparei faz tempo e tento fazer de conta que não, mas esse inverno de Rio Grande (RS) acaba comigo. Aqui faz um dia de céu aberto para três, quatro de chuva e cinza e eu sou movida a sol. Sol. Faço reza forte pelo verão de março a novembro, quero dias enormes, o pé na areia da praia do Cassino. Gostaria de ser menos suscetível aos fatores externos e ter o equilíbrio mais por hábito que por horizonte, mas o mundo me absorve e me gasta e me provoca e eu não consigo passar alinhada, penteada e fina sobre o que me chega em onda, coisa de quem tem o mar por perto, acho. E a minha escrita acaba tendo esse tom, às vezes sol às vezes não.

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Andréia Pires é rio-grandina, escritora, jornalista e professora. Mestre em História da Literatura pela Furg e doutoranda em Escrita Criativa na PUCRS, é autora do livro de contos “De solas e asas” (2012) e do infantojuvenil “Um ninho no estranho” (2013), colabora semanalmente com contos ao jornal Diário Popular e uma vez por mês com a revista literária Samizdat.

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