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Wesley Peres

Café. Parece que todos que escrevem precisam da ingestão de um líquido. E o café é uma espécie de líquido-clichê-para-a-escrita. Dane-se. Sei de pouca coisa, mas desconfio de muita coisa — disse o famoso escritor, filho de Floruardo Pinto Rosa. Do pouco que sei, garanto que inspiração é o ato de encher os pulmões (parte de um processo importante para se manter vivo, de um modo geral, mas não para escrever, especificamente, ainda que estar vivo seja condição necessária para escrever).

Então, o meu método de escrita é beber café. Ou, ao menos, trata-se de uma condição necessária, mas não suficiente. Não preciso do encaixotamento do tempo, o que não é nenhuma vantagem. Nem do espaço, também não estou me gabando. Não há um horário específico e imprescindível para escrever. Mas há (ou tem havido) um lugar específico de que eu não posso prescindir. Prefiro escrever em casa, na minha biblioteca, tenho  uma  porque moro no sertão (Catalão-GO), e por aqui se pode comprar, sem ter de vender os rins, um lote onde se pode ter uma biblioteca separada da casa. Mas tem dias que escrevo num café, numa panificadora, só para dar um tempo pra minha biblioteca, pra que ela não canse da minha presença, e da presença desse ato enfadonho de assistir: escrever.

Então que preciso de café e da minha biblioteca. A biblioteca me oferece uma coisa mais fundamental do que um espaço silencioso, livros. Aí sim a coisa pega. Preciso de livros que, ao lê-los, me produzam o desejo de escrever. Raduan Nassar, Beckett, Clarice, Roberto Juarroz, Sterne, Joyce, Lúcio Cardoso, Campos de Carvalho etc. me provocam o desejo de escrever. Já Dostoiévski, provavelmente o meu autor preferido (não sei mais se existe isso de O meu autor favorito), não me provoca desejo de escrever, exceto Memórias do Subsolo.

Escrevo sempre no computador, minhas mãos segurando caneta se tornaram ágrafas. No princípio é o título (não estou me comparando com Deus, que está morto, e como já disse e todos sabem, respirar, estar vivo, essas coisas Deus não pode fazer, vivo ou morto). Depois do título, vêm as frases, que preciso construir uma a uma, com o rigor do poema, ainda que se trate de prosa. Depois de umas vinte páginas, escritas e desescritas um punhadão de vezes, sei o que quero do conjunto. Continuo escrevendo frase a frase, com o rigor do poema, o que pode fazer entortar ou desabar o projeto do conjunto.

Ah, preciso, mas posso prescindir disso, preciso escutar música para escrever. A música é o melhor silêncio para quando sento para escrever. O melhor silêncio para Faulkner era um bordel, segundo ele próprio declarou.

Escrever é, portanto, um trabalho que inclui estranhezas muitíssimo pessoais — igual a (quase) tudo na vida.

 

Wesley Peres é autor dos romances As Pequenas Mortes (Rocco, 2013); Logo mais, à tarde, Finalista do Prêmio São Paulo de 2008, vencedor do Prêmio Sesc de Melhor Romance em 2006 e indicado ao Portugal Telecom 2008 e das obras de poesia Palimpsestos (Editora da UFG 2007); Rio Revoando (USP/Com-Arte 2003), Água Anônima (AGEPEL, 2002) e A voz de um corpo despedaçado, que sai em maio pela Editora Martelo. É também psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasilia (UnB); Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mora, atualmente, em Catalão-GO.

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