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Chris Ritchie

As ideias me aparecem querendo ser escritas nas horas mais impróprias e, às vezes, nas horas certas, quando, em quatro noites por semana, me sento ao computador para ser organizada. Essa vontade delas, alheia ao que me é conveniente, me dá muita certeza de que eu não mando em nada, apenas sou escritora e as palavras estão em mim como oxigênio, circulando pelos meus músculos, preparando-os para a ação. Gosto de ser assaltada no meio do sono com um poema exigindo existência imediata; gosto de ver na rua, a caminho de um compromisso, uma história brotar de um grafite ou de uma banca de jornal e me fazer irremediavelmente atrasada porque tive de começar a escrevê-la bem ali; adoro ouvir a primeira frase de um personagem na boca de outra pessoa e anotá-la mentalmente em uma espécie de desafio – será que vou lembrar? – no meio da rua, no meio da festa, onde for; gosto de ser necessária para materializar as formas que habitam um outro lugar e atravessam despercebidas tantas outras pessoas. Minha principal rotina é estar atenta a tudo que desperta emoção, seja a minha, seja a dos outros, para o bem e para o mal – às vezes, é beijo e brisa, às vezes, é murro e faca, e entre os extremos, tudo o mais.

Sendo absolutamente pragmática, escrevo o tempo todo: dormindo, comendo, no banho, me deslocando e até mesmo no meio dos outros trabalhos. Dependendo do espaço, do tempo, dos recursos e das ideias faço pequenas anotações ou escrevo parágrafos, poemas inteiros em trânsito e, também dependendo dessas circunstâncias, o idioma é inglês ou português ou ambos, para horror dos puristas!  Um pouco como Charles Bukowski, mas jamais igual a ele, tomei consciência do que escrever significa para mim tarde na vida (mas, também como ele, não demais) e me enrolei em outras responsabilidades do viver. Então, no meu tempo livre, sempre escasso, como haveria de ser para uma mãe-escritora-atleta-empresária, organizo as anotações, as ideias, os enredos e as falas dos personagens. Os poemas são mais fáceis porque já vêm prontos ou quase, bastam poucos minutos no computador para registrá-los e depois de alguns dias faço a revisão. Os contos, histórias e romances passam como uma espécie de story-board, que vou elaborando entre e durante os afazeres, mas também a partir deles, pois me dizem muito sobre mim mesma e sobre as pessoas com quem interajo, somos os personagens em estado bruto. Atualmente, com o acúmulo de tarefas de um lado e de ideias do outro, procuro o equilíbrio para ser justa e sã, mas percebo que estou chegando a uma encruzilhada, onde fatalmente a balança penderá para o escrever. E por que não escolher agora, antes da encruzilhada? A resposta é pano para outra manga.

 

Chris Ritchie nasceu em Santos, SP em 8 de novembro de 1967. Sempre adorou ler e mesmo antes de saber escrever já escrevia. A partir dos 10 anos começou a guardar algumas de suas poesias, histórias e contos. Em 2013 escreveu dois romances, Oceanos e Lafite Giganteus (ambos inéditos), e atualmente, entre poemas e contos, escreve o terceiro. Graduou-se na FFLCH-USP com diplomas de Bacharelado e Licenciatura em Língua Inglesa e Literaturas de Língua Inglesa (1990) e Mestrado em Literaturas de Língua Inglesa (1997) e, pela International House of London, obteve o Diploma em Gestão Educacional (2001). Colaborou com a revista Germina, os Cadernos de Tradução, o site Escritoras Suicidas e o blog Poema Curta-Metragem. Em inglês e português, Chris Ritchie é escritora, professora, revisora, tradutora e intérprete. Em 2007 fundou a Ritchie&CO. – Comunicação em Inglês e Português, é casada com seu sócio e tem um filho de 12 anos.

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