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Pedro Guerra 

Escrevo enquanto caminho. Sem papel nem caneta, vou criando histórias a partir do que vejo. Vou roubando quadros do mundo – talvez, para muitos, os menos interessantes. Aquele cabelo vermelho na outra esquina, esse cheiro de gasolina ao passar pelo posto, a garota na parada do ônibus. Gosto de recortar e colar tudo do meu jeito.

Quando escrevo, me silencio. Não é à toa que para colocar as palavras no papel preciso que o mundo esteja no mute. Acho que essa ânsia por um som que é mudo me transporta mais facilmente para aquilo que ainda não conheço, e de alguma forma (que nem eu sei como) me aproprio das palavras que busco.

Para mim, as melhores ideias são aquelas que perturbam. E, como não poderia deixar de ser, elas vêm à noite. Tem vezes que não prego o olho, faço da cama um mar – e olha que nem nadar eu sei. E é aí que meio minuto depois a insônia se explica: meu subconsciente ganha força e grita trechos, suspiros, ritmos e sentenças em descontrole. Há alguns anos eu guardava tudo para o dia seguinte (resultado: nunca lembrei de nada). Então, objetivando evitar o desperdício, agora anoto tudo. De manhã, entretanto, as reações se bifurcam: ou dou continuidade às ideias anotadas ou exclamo um baita de um “ahn?”.

Em tempo: a minha escrita não é bonitinha. Digo, a minha letra quando no papel é uma coisa de se ter pena. Quanto a isso, parei de me culpar quando percebi que ela só sai feia pois sai apressada, em uma tentativa pouco sucedida de acompanhar o pensamento. Por isso, apesar de amar tudo o que é impresso, escrevo no digital. Já tentei cultivar caderninhos, separando ideias, personagens, causos e caos.  Já tentei pastas, blocos, agendas foram mais de dez. Qualquer coisa assim que me encaixasse no estereótipo do escritor = caderno + café / inspiração. Mas isso não sou eu.

Eu sou meio desespero e solidão. Tento encontrar o escape nas linhas que surgem quando elas mesmas se sentem à vontade. Eu sou um dicionário jogado dentro do liquidificador sempre ligado, um aglomerado de ideias que colide tentando resultar em algo concreto quando eu paro de pulsar. Eu sou uma batalha diária atrás do meu objetivo – eu sou uma Guerra inteira. Eu sou meio estranho, mas meio normal. Meio mais do mesmo mas um mesmo diferente. No fim das contas, eu sou só mais um Pedro.

 

Pedro Guerra é escritor e graduando de Jornalismo.  Em 2012, lançou um suspense intitulado Você Pode Guardar um Segredo?. No mesmo ano, foi vencedor no 46º Concurso Anual Literário de Caxias do Sul. Em 2013, além de vencer na categoria contos o I Prêmio Antares de Literatura – José Clemente Pozenato, Pedro lançou o livro A Rainha Está Morta, atualmente na 3ª edição. 

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