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Marcos Peres

Há uma contenda literária que, resumidamente, consiste na sentença: você escreveria se soubesse que nunca terá leitores? Umberto Eco justifica sua resposta (não!) com o seguinte argumento: imagine que o mundo acabaria amanhã. Você, então, escreveria? Sabedor do tempo escasso restante, eu certamente procuraria coisas impreteríveis a fazer, afazeres mais urgentes diante deste termo final. Em todas as outras hipóteses, ouso discordar do mestre italiano. Ao escrever, não vindico as eternidades das academias ou o afago de um amigo leitor. E, neste ponto, há o sério risco de ser confundido com um dervixe asceta, indiferente ao elogio. Refuto este argumento com o fato – nem notável, nem notório – de que, em meu chuveiro, levantei já o Grammy, o Nobel, o Oscar e a Copa do Mundo, enquanto, na verdade, levantei Shampoos, ao som da ensurdecedora plateia da água que cai. Tais sonhos, mesmo que infantilizados, existem, não os nego.

No entanto, o fim imediato da minha escrita é diverso, muito menor e muito mais íntimo: Escrevendo, queimo os demônios interiores e expurgo os tantos fantasmas que fazem moradia neste corpo. Débil a língua, incapazes os músculos, infrutíferos o olhar e o tato, resta-me, então, a escrita. Os pen-drives e as gavetas são os receptáculos de meus anseios, minhas personalíssimas caixas de pandora. Escrever é a primeira terapia, o último recurso, a mais eficiente fonte propulsora. Ao ler, transporto-me para inúmeros mundos desconhecidos. Ao escrever, submeto inúmeros mundos às minhas subjetividades, no chicote curto, marcha!, Primeira posição, eia, à Central dos meus rancores e vontades inebriantes.

O que acontece depois – o elogio ou a indiferença, os peremptórios adjetivos de genialidade e boçalidade – cumprem com seu papel e são inseridos, mais no texto que no seu pobre autor. Este já ganhou seu quinhão com o ato de escrever. E ganhará outros tantos quinhões enquanto estiver vivo. Porque descobriu que o viver e o escrever caminham indistintamente juntos.

 

Marcos Peres nasceu em Maringá e viveu sua infância em Astorga/PR. É graduado em Direito pela Universidade Estadual de Maringá. Atualmente, é servidor do Tribunal de Justiça do Paraná. É um dos autores do Projeto “Contos Maringaenses” que reuniu jovens escritores locais e que resultou no livro homônimo. Venceu o Prêmio SESC de Literatura 2012/2013 e é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2014 com o Romance “O Evangelho segundo Hitler”. Em 2015, seu segundo romance será publicado pela Editora Record. 

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