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Luís Roberto Amabile 

Sou homem grisalho que carrega um saco de lembranças. Essa frase lida não sei aonde me marcou e queria começar com ela. A bem dizer, não sou (ainda) grisalho, e as lembranças que carrego são inventadas. Mas eu as tiro do saco e tento fixá-las em palavras escritas.

Na verdade, sou um homem que acorda cedo e encaixa palavras. Seis, seis e meia estou acordado e ansioso. Leio um pouco, tomo café, às vezes em silêncio, mas é que já estou pensando nas palavras. Lavo a louça, sei lá o porquê isso ajuda. Não sei explicar, você me pede para explicar algo que não controlo.

Vou para o escritório, fecho a porta, o computador já está ligado. Preciso de isolamento. “Para Martin, o escritor é aquele sujeito que se sente mais vivo quando está sozinho”, eu li que a esposa do Martin Amis declarou. Eu me identifiquei (provavelmente a minha esposa, a minha família e os meus amigos também).

As palavras não encaixam com facilidade, tenho de ser ferreiro, derreter o ferro e bater bater bater. Para dar forma ao texto. Talvez por isso meus contos levem tempo, às vezes anos, para ficarem prontos. Não que eu fique satisfeito (acho que ninguém fica, e sou ainda um aprendiz), mas por um momento sim.

Não sei. A verdade é que eu não sei.

Processo criativo, tento domá-lo. As ideias estão dispersas, as soluções surgem sem que eu espere, ou não surgem quando eu espero.

Queria ser um escritor mais racional. Daqueles que planejam cena por cena, depois escrevem conforme o planejado. Seria menos sofrido. Eu tento, mas são raras as ocasiões em que consigo. Uma vez escrevi uma peça (No bico do corvo, está publicada – Sesi-British Council, 2012) em que os personagens vivem no País das Peças Prontas, onde estão todos os textos não escritos. Apesar de ainda não escritos, já estão prontos, falta o autor ir pegá-los. Acho que tento me convencer disso.

Volto à frase inicial. Aos cabelos grisalhos. É que faço jornada dupla. Tenho de ganhar a vida e, além disso, escrever. O jornalismo, “uma bela profissão”, segundo o Hemingway, “desde que largada a tempo”, já me deu muito sustento e tirou bastante o meu empenho para a ficção. Agora ao menos mexo com literatura. A bolsa de doutorado em Teoria da Literatura é o que me paga as contas. Só que tenho de produzir uma tese. Produzir uma tese e paralelamente escrever ficção faz com que eu me agrisalhe.

 

Luís Roberto Amabile (Assis/SP, 1977) formou-se em jornalismo na USP e trabalhou na grande imprensa paulistana por mais de um década. Veio para Porto Alegre em função do mestrado em Escrita Criativa na PUCRS, onde atualmente cursa o doutorado em Teoria da Literatura. É autor de O amor é um lugar estranho (Grua, 2012, finalista do Prêmio Açorianos 2013 na categoria Contos) e O livro dos cachorros (Patuá, 2014, no prelo).

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