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Bruno Ribeiro

Existem diversas maneiras de vivenciar a escritura, no meu caso, ela vem de dentro e é convocada através dos livros lidos, artes absorvidas, risos e gritos, porradas da vida, arquivos neurológicos que germinam em anos, horas, minutos, segundos, agora. Acredito que meu cérebro seja uma bibliotecária esquizofrênica e de memória seletiva. Em relação a inspiração, entrar em labirintos para tentar encontrá-la é nunca achar o caminho, não busco o encanto das musas do romantismo, uso o que tenho. A linguagem é um inconsciente que se torna consciente na digitação, no riscado.

A minha bibliotecária pensa em transe, mas na hora de concretizar o abstrato, ela se torna catarse. As narrativas que produzo estão afogadas na verborragia, no caos noturno, no fluxo de fala e consciência, mas essa febre literária é construída passo a passo, matinal, pensada sóbria e conscientemente: a inspiração nunca foi convidada para a festa.

Quanto aos procedimentos de trabalho, se eu pudesse, não escreveria escutando o ruído do todo, o vai e vem da gente, a minha própria respiração; se possível, parava de respirar para escrever e o único som audível seria o tec tec tec da digitação. Inviável em termos biológicos, demorei para entender que não há como cobrir o Planeta Terra com uma faixa de silêncio: estamos em obra, então foi preciso criar meu próprio planeta, e na hora de preenchê-lo com literatura, eu o derrubo e ergo, feito um arquiteto do silêncio brincando com uma maquete de palavras.

Alguns autores amam escrever em meio a bombas atômicas; eu gosto que o bombardeio ocorra no antes, no processo de criação do relato: que este seja barulhento, britadeira na testa, terremoto no tórax, voadora no rabo do capeta, tudo vale. Me desatino, sóbrio ou chapado de ópio, mas… na hora da escrita é missa de sétimo dia, e eu bato ponto nesta igreja a cada instante.

Gosto tanto do silêncio sacro na hora de produzir que tenho vontade de cravar uma estaca no peito e escrever dentro de um caixão, tenho certeza que ali encontraria a tal paz de espírito que busco na literatura, e eu sei que seria viável em termos biológicos, pois o escritor é sempre implacável: um treco que continua consciente, mesmo morto.

 

Bruno Ribeiro foi parido em 1989. Mineiro de berro e Paraibano de coração. É tradutor, escritor e roteirista. Lançou Poluição Mental (Auto publicação, 2012) e Arranhando Paredes (Editora Bartlebee, 2014), ambos de contos. Fez parte do Núcleo Literário Caixa Baixa na Paraíba e publicou em jornais, blogs literários, antologias e revistas. Atua como editor-chefe da Revista Sexus, de literatura e arte erótica e pornográfica: sexusrevista.com. Hoje, vive em Buenos Aires e cursa os mestrados de Escrita Criativa na UNTREF (Universidad Nacional de Tres de Febrero) e de Cinema e Teatro Latinoamericano e Argentino na UBA (Universidad de Buenos Aires). Sobrevive como um literato adestrador de elefantes. Edita o site: quebrandoogenio.com

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