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Jeferson Tenório 

Eu já experimentei todo o tipo de rotina: escrever todos os dias, ter horários fixos, escrever quando dá, nos finais de semana, nas férias. Tudo é válido para erguer algo que valha a pena em literatura. O negócio é não parar de escrever. Porque eu penso quase o mesmo que o Mario de Andrade quando disse para o então iniciante Fernando Sabino: que a gente deve escrever para se vingar da vida. Eu não sou tão vingativo assim, então eu escrevo é para discordar do mundo porque às vezes eu não concordo com a vida.

Eu não escrevo todos os dias, mas sei que deveria. No entanto eu compenso. Quando não escrevo, eu caminho. Ponho os fones no ouvido eu vou com o Philip Glass, com o Chico, com o Racionais MC, com o Vivaldi ou com a Nina Simone. Penso nos enredos enquanto estou na multidão. Gosto da rua porque a gente que escreve costuma a achar, por vezes, que a escrita é a coisa mais importante do mundo, mas eu penso que a coisa mais importante do mundo são as pessoas. No ônibus, no taxi, no restaurante, nas ruas, há sempre uma frase solta, retalhos de histórias que formam a poética da cidade. A grande narrativa humana está sempre muito próxima de nós. Eu acho que o exercício da escrita deve ser também um exercício para perceber as pessoas.

Eu leio mais do que escrevo. Ler é inerente ao processo da escrita. Por isso tenho autores que constantemente tenho de voltar: Cervantes, Carolina Maria de Jesus, Dostoieviski, Clarice, Philip Roth. No momento da criação ouço muita música instrumental, geralmente trilhas sonoras de filmes. Mas quando chega o tempo da reescritura eu prefiro o silêncio.  Atualmente escrevo à tarde, não todas as tardes, mas ao menos três vezes por semana, durante uma ou duas horas. É pouco. Pois sou professor e às vezes viro refém das provas e redações que tenho de corrigir, a preparação de aula, reuniões, cadernos de chamadas, além é claro da vida prática de todos os dias.

Por outro lado, eu penso que ninguém deve reclamar da falta de tempo para escrever. Pelo menos para quem pretende levar a escrita a sério. Porque eu acho que a escrita é sempre precária e a gente deve aprender escrever na precariedade. Produzi meu primeiro romance em 4 anos, foram 4 anos de turbilhões: família, TCC, mestrado, separação, filho. Ergui um livro em meio ao caos. Meu único capricho foi finalizá-lo de frente pro mar. Não que eu não pudesse terminá-lo dentro do meu quarto, mas é que escrever de frente para o mar era preciso, porque foi, talvez, uma espécie de acerto de contas com a beleza.

 

Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre é mestre em letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Leciona em escolas de Porto Alegre. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009, com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul, com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008. É autor do romance O beijo na parede. Vencedor do Prêmio AGES (associação do gaúcha dos escritores), eleito o livro do ano de 2013.

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