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Cris Vazquez

Escrever é obsessão, jogo, brincadeira de criança. Escrever é sério, persuasivo, é fingimento. Escrever é urgente para mim, em face da idade, em decorrência de muita vontade. De ficar dias sem escrever e de repente sentar desesperadamente no computador e dizer: “é agora, chegou a minha vez de ser feliz.” A inspiração pode vir de um sonho, do qual você acorda com uma ou duas frases feitas, como as utilizadas no conto Pretexto: “- Sei que veio pela literatura e não por mim. – Vim por você, não pela literatura.” Ou então de acordar e não ver alguém ao seu lado e imaginar o que poderia ter acontecido com aquela pessoa. Sai um conto rapidinho, como o coágulo de Cortázar, um tema que coagula em sua alma e você simplesmente senta e escreve sobre aquilo como água correndo. Além do sonho, o ambiente líquido é um estado importante. Principalmente no banho, onde além de limpar o corpo, você pode assear a mente, manifestar um pedido divino de inspiração, vivenciar um fluir de ideias líquidas, que poderão se tornar sólidas num momento posterior.

Escrever é pedir ideias para a mãe e para as amigas, é olhar para gentes em vários espaços e se apropriar de seus modos de ser e de viver. É saber de histórias interessantíssimas, mas incontáveis, e evitar muito revelá-las para não invadir a privacidade de ninguém.

Escrever é organizar a vida para tanto, contratar alguém para levar seus filhos nas aulas extras, deixar de fazer programas de fim de semana para encontrar alegria no mundo da imaginação. Escrever é parto que dói e gratifica. Nem sempre o coágulo surge.

Antigamente, bastava eu ter uma pequena ideia que corria para o papel ou meios subsequentes e deixava ver no que ia dar. Hoje em dia, estou começando com um planejamento inicial, embora o rumo da história possa mudar no meio do caminho e eu mesma venha a me surpreender. Talvez ainda acredite mais no acaso do que no projeto.

Escrever é querer ter amigos escritores, ser publicada e lida. Escrever é clamar por atenção e solidariedade intelectual. Escrever é nunca deixar de escrever. É ser amante da palavra em brasa.

—-

Cris Vazquez é advogada pública e Mestra em Literatura pela UFSC. Tem contos publicados em antologias digitais e impressas. É uma das autoras de Onisciente contemporâneo, antologia organizada por Luiz Antonio de Assis Brasil. Foi finalista do Prêmio SESC 2016 na categoria Livro de Contos.

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