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André Timm

Sobre as razões para escrever

Escrevo para dizer as coisas que não tenho coragem de dizer eu mesmo. Uso personagens na esperança de que das brechas do subconsciente emerjam os subtextos, as nuances que dizem mais a meu respeito do que eu mesmo sei. Escrevo porque não me encaixo, porque tenho um medo inexplicável das coisas, do amanhã, das ideias indizíveis que insistem em me acordar no meio da noite e que nem mesmo na literatura eu ousaria colocar. Escrevo porque tenho necessidade de aprovação. Porque na minha literatura a última palavra é a minha, porque lá eu posso estar sempre certo ainda que esteja errado. Mas, felizmente, também escrevo porque sou facinado por narrativas e espero que algumas pessoas experimentem através da minha produção o prazer de ser arrebatado por uma história bem contada.

 Sobre as razões para não escrever

Ao mesmo tempo em que escrevo em função de tudo que enumerei antes, também tenho um eficiente mecanismo de autossabotagem que me faz ser um procrastinador de mão cheia. Eis aí um dos motivos por que resolvi encampar o 2 mil toques, um projeto onde escritores compartilham suas rotinas e processos de produção. Enquanto é óbvio que muitos escritores procrastinam, é importante perceber que o que os diferencia em termos de constância de produção é o quão bem conseguem lidar com o desejo de protelar. Perceba que o problema não está necessariamente ligado ao quanto você produz mas sim a sua expectativa de produção e o quanto você corresponde ou não a ela. Nosso tempo dita um ritmo tão acelerado que isso acaba criando uma sensação opressora que nos impele a uma pseudo obrigação de produzir cada vez mais. Portanto, como caminhar ao longo da frágil linha que divide o que seria procrastinação e o que seria um desrespeito ao tempo que cada ideia pede para amadurecer e se tornar, de fato, uma história? Não sei se existe resposta para isso, ou talvez uma das alternativas seja intercalar produções, mas uma coisa é certa: não acredito em inspiração sem rotina. Quando deixa-se de pensar na ideia romântica e idealizada do escritor que é agraciado com insights geniais é fácil perceber que a inspiração visita quem senta todos os dias para escrever. Fácil falar, difícil fazer, mas saber já é um tanto do caminhado andado, porque o coloca em um estado de consciência que resulta em uma busca de métodos para melhorar essa relação entre expectativa e entrega. Já experimentei muitas táticas pra ajudar a tentar estabelecer uma rotina de produção diária. Algumas funcionam mais, outras menos e outras nada, mas ir experimentando faz parte da própria aventura procrastinadora. Dentre as mais bem-sucedidas em minhas tentativas eu cito: a) Atrelar produções específicas a prazos pode ser um bom incentivo para produzir com ritmo; b) Trocar o computador pelo caderno ou máquina de escrever (que é meu caso, leia aqui e aqui) também vai muito bem. Não resolve o problema de quebrar a inércia inicial de sentar para começar, mas uma vez vencida essa etapa, flui bem pois não tem todas as distrações que o computador oferece; c) Ter o momento inicial de colocar tudo no papel sem preocupações estilísticas para em etapas posteriores, aí sim, ser preciosista e lapidar o texto. Seja quais forem os métodos de produção que funcionam melhor pra você, o importante é continuar sempre, mesmo que não parar signifique estar sempre investigando como não se para.

André Timm é natural de Porto Alegre. Em 2010, recebeu menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura por seu primeiro livro de contos, Insônia, publicado pela Design Editora em 2011. Em 2014, teve parte de seu trabalho selecionado para integrar a revista Machado de Assis, uma publicação da Biblioteca Nacional que tem como objetivo divulgar autores brasileiros para o mercado editorial internacional. É criador do site 2 mil toques, cujo objetivo é mostrar as rotinas e processos envolvidos no dia a dia de escritores brasileiros. Atualmente, trabalha em seu primeiro romance. Escreve também em www.andretimm.com.

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