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Claudia Nina

Escrevo nas brechas do tempo. Abro clareiras no emaranhado de cipós e troncos altos na minha floresta diária onde cresce abençoadamente uma rotina de estudo e educação de duas meninas, minhas filhas de 8 e 10 anos. Não me organizo para escrever senão o texto não acontece. Minhas gavetas sabem que eu odeio papel. Só consigo compartimentar bem minhas maquiagens – são de plástico e têm cor, isso alivia a tensão de dar um sentido de compostura ao que está espalhado. Mas as ideias também estão espalhadas. Então preciso ir buscá-las ou deixar que elas apareçam. No momento certo, dou permissão e tudo acontece. Não sei dizer quantas horas escrevo por dia – o processo é tão desorganizado quanto minhas gavetas. Às vezes, passo tardes e manhãs inteiras produzindo. Há dias em que escrevo sem escrever – o texto invisível do que ainda vai existir. Desisti de trabalhar tarde da noite, o que é uma troca de turno: até o ano passado, eu gostava de escrever depois das 22 horas. Alguma coisa aconteceu, mas não quero sondar o mistério lunar. Crio mundos habitados pelas cores e pelas palavras que me acompanham neste dia a dia intenso – elas caminham comigo pela mata, driblam os insetos e os bichos de floresta, ficam à espera do momento em que possam ganhar forma na clareira que eu abro no escritório – sim, tenho um espaço só meu, onde me alojo, mas não me escondo. A porta de correr me mostra como anda a vida do outro lado da criação para que eu possa controlar o melhor dos dois mundos. Não tenho pressa em transformar essa nuvem de pensamento que me acompanha em texto; o tempo da espera é sempre importante. Se eu me apressar em escrever o que pensei em um primeiro momento, o resultado sairá verde e sem sabor.  Escrevo para adultos e para crianças em comandos diferentes. A ficção adulta surge de um elaborado processo que pode demorar uns dois anos aproximadamente. Quando termino um romance, um novo já começa a nascer como o dente da criança que surge por trás – meus referenciais ainda são a infância e isso me renova de energia. Em geral, gosto de uma escrita densa que me faz beber água azeda. Aprendo com minhas personagens porque, contraditoriamente, empresto a elas meu deserto. Odeio palavra difícil. Prefiro entortar o que é simples. Escrevo direto no computador – a forma como o texto sairá na tela me ajuda a criar o pensamento do próximo capítulo. Para crianças, tudo é bem diferente. Tenho uns cadernos coloridos e os primeiros rascunhos das histórias nascem ali. Preciso do movimento da caneta, ver minha letra desenhar a criação. Minhas melhores histórias infantis surgiram de repente, quando uma ideia chegou perto de mim e disse: me faz acontecer? Nunca bebo nada além de água quando escrevo. Sequer vinho ou café. Me atrapalha. Curioso isso. Comecei escrevendo na redação, sou jornalista. Mas hoje gosto do silêncio e da água, em vez do barulho e do café; o silêncio da minha “clareira”. Não saberia criar meus textos na confusão de muitas vozes falando ao mesmo tempo. Acho que a ficção é mais solene do que o texto do jornalismo para mim neste sentido. Gosto de cidades e de transformar em ficção o impacto delas em mim, como fiz em Paisagem de porcelana: acho que os cenários são de carne e osso. Por alguns eu me apaixono, por outros sinto arrepio de medo. Penso que esta sensibilidade geográfica é um braço a mais.

 

Claudia Nina nasceu no Rio de Janeiro, onde mora. É jornalista, doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda. Assina uma coluna de crônica na revista Seleções (Reader´s Digest) e é autora de A palavra usurpada, tese sobre a obra de Clarice Lispector (Editora da PUC-RS); A literatura nos jornais (Summus); os infantis A barca dos feiosos (Ponteio), Nina e a lamparina (DSOP) e A repolheira (Aletria), além do perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (José Olympio) e do romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco). 

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