Pular para o conteúdo

Douglas MCT

A primeira coisa a se saber é que eu não tenho disciplina nem métodos.

Contudo, é claro, existem alguns signos que me acompanham continuamente: café, sempre tem uma caneca vaporosa do meu lado, recarregada conforme o rendimento do texto. Na maior parte, uso uma escrivaninha de mogno que tenho há 17 anos, ela balança, mas não cai, e segue firme sustentando as minhas histórias. Sempre escrevo em um desktop, preferencialmente o meu, mas já usei de agências onde trabalhei ou da casa dos meus pais e foi funcional; mudar de ares rende bem, confesso, ainda que eu não faça com tanta frequência quanto gostaria. Nunca notebook, o teclado é pequeno demais, gosto de apoio para os cotovelos e um certo espaço entre eles e as teclas. Nunca no lápis ou na caneta. Não escrevo a mão desde os 13 anos (já usava máquina datilográfica na época, uma Hermes Baby Cursiva) e as dores nas mãos não me inspiram; masoquismo não funciona para a minha criatividade. No computador, além do Word para a escrita, deixo o Google Docs aberto no navegador para anotações pontuais, o Sinônimos.com.br e o Michaelis Online para alguma consulta precisa, e o Youtube e/ou Grooveshark para trilhas rolando ininterruptamente (logo volto neste detalhe).

Quanto ao tempo: geralmente estou dormindo pela manhã ou aquecendo o cérebro para começar no cotidiano, então é uma parte do dia inútil para mim. A tarde é muito quente e eu abomino o calor, também não serve – e geralmente barulhenta e movimentada, com muitos telefonemas interrompendo o percurso. A noite é quando o motor esquenta, geralmente depois das 22h e melhora no início da madrugada, silenciosa, fresca e aconchegante. O impulso se inicia na escuridão e termina quando amanhece. Como diria o ressurrecto R.F. Lucchetti: “Por mim, eu só viveria à noite, porque, antes de tudo, sou um romântico e penso que a luz do sol banaliza as coisas”.

Contudo, eu escrevo todos os dias, ainda que à noite.

Se isso pudesse ser chamado de método, e não pode, eu diria que, impreterivelmente, sempre ouço trilhas sonoras ao escrever. Sempre. Geralmente, trilhas de filmes/ séries de épicos, de suspense ou de terror. Nada de bandas nem vocais. As orquestras me ajudam a imergir no enredo, bloqueando o som ambiente. Fico inatingível. Também adoro fazer brainstorms com alguns outros amigos autores, geralmente dois ou três que já estão acostumados com as minhas loucuras (que, se não rendem um livro novo, rendem um conto, ou então uma HQ inédita). Um detalhe relevante e não menos importante: faço resumos das minhas histórias – se longas, como para um romance, variam de 4 a 10 páginas, sintetizando todo o conteúdo de maneira macro; se curtas, como para um conto ou novela, ficam entre um ou três parágrafos, no mesmo espírito.

Vez ou outra, o Noite e a Lua, os gatos preto e branco, se empoleiram nos meus ombros para acompanhar a narrativa, e averiguam se não pulei uma vírgula ou se coloquei o ponto final antes da hora exata.

As ideias vêm em vão sem controle ao longo do dia, após a sessão de um bom filme, muitas vezes embaixo do chuveiro, ou até mesmo enquanto navego pela internet. Não costumo anotar nada e conto com minha memória de peixe para guardá-la até chegar em casa e documentá-la digitalmente. É um risco, eu sei. Mas gosto de acreditar que esse processo ajuda a filtrar o primeiro insight, peneirando-o até que ele saia da minha cabeça para os dedos, então deles para o teclado. O que chega no Word depois nunca é igual a primeira ideia, e eu nunca vou saber qual delas teria sido a melhor, mas eu acredito no que escrevo e quando gosto do que escrevi, geralmente o leitor curte também (senão, eles me enviam e-mails furiosos). Ideia é igual exame de urina: descarte o primeiro jato.

Quando jovem, eu costumava afirmar a visita de uma musa. Ela chegava junto da madrugada, nua e voluptuosa, ainda que sem uma aparência específica (mais tarde, ela assumiu a forma de Santa Muerte), e sussurrava e cantava e dançava as ideias para mim. Mas as musas nunca ficam com os créditos e os autores nunca são os donos da história. Às vezes, personagens que deveriam sobreviver até o próximo ato, morrem. Às vezes, o herói me decepciona, tomando as rédeas na reviravolta. O autor como ferramenta. Eu sou apenas o corpo, o homem no teclado, com o café, a escuridão e os gatos. É utópica a visão divinal e controladora do escritor. Os personagens possuem sobrevida e a história se conta sozinha. Não sou o títere, sou o boneco. As cordas que me controlam vem do outro lado, onde reside a ficção.

Por fim e sempre, quando a madrugada termina, eu ouço o risinho dela. Da musa, sabe? E quando eu olho para agradecê-la, ela não está mais ali. Eu fico arrepiado. Sentir medo é bom até certo ponto, mas os dedos congelam e não consigo continuar na escrita. Então amanhece e eu vou dormir.

Quando for a hora, eles vão me chamar novamente para contar suas histórias.

 

Douglas MCT atua como roteirista de quadrinhos, filmes, games e desenhos animados. Editor-Chefe da revista de entretenimento japonês Neo Tokyo, também escreveu para as HQs da Turma da Mônica, é criador e roteirista dos mangás Hansel&Gretel e Dez Desejos, e das animações da Galera Animal para a TV Globo. Autor do livro O Coletor de Almas e da série Necrópolis, ainda possui vários contos publicados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Comentários

Manu da Italia em Fabio Rabelo
Fabio Rabelo em Fabio Rabelo
Maria Dolores Wander… em Maria Dolores Wanderley
Cristiano Gabriel em Gregory Haertel
Ana Lucia em Hugo Pascottini Pernet
%d blogueiros gostam disto: