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Moema Vilela 

Escrevo em casa, no computador, em silêncio ou com música instrumental, às vezes tomando chá, café, mate, vinho ou tereré, nessa ordem. Quando tem algo difícil de resolver, mastigo o chiclete da indecisão: o domador de leões vai aceitar de volta a atiradora de facas? A palavra vento pode abrir a palavra pastel? Passo a ansiedade da resposta para os dentes, a muleta da mastigação no sabor menta. Ou então vou dar uma volta na janela da sala, vejo as árvores, a intimidade dos vizinhos, os passarinhos, depois volto a me sentar na frente do computador. Escrever na rua, no café do bairro, na fazenda é mais raro, mais uma experiência do que algo recorrente, apesar do romantismo de escrever sentindo a rua. Na prática, as viagens e o rumor de feira livre se materializam no meu quarto quando eu abro um arquivo novo de texto e sei que tenho algumas horas para esperar a alquimia acontecer.

Isso do tempo eu ainda não aprendi. Escrevo quando lembro que posso. Deixar outras coisas para trás, roubar as horas das pesquisas, dos aniversários, das urgências, dos compromissos. Da minha família e dos amigos.

Só tive rotina de escrita em 2012, quando estava fazendo um romance e tinha prazo de fim. Foi muito bom, porque o romance saiu. Eu ia dormir pensando nos personagens, na narrativa e em seus problemas muito relevantes, e acordava no domingo às oito da manhã com olheiras de romance. Maravilhosamente alienada dentro de um mundo de mentira, ele foi se tornando mais consistente, ganhando carne em cima do esqueleto e chapéu em cima da carne. Essa parte é muito boa, é enfim o prazer, depois de toda artesania obstinada e bem pouco gloriosa desse tipo de escrita. Por alguns meses, eu dormia menos, saía menos, sabia menos, mas vivia o romance. Nessa época, me perguntei sobre essa alucinação de escrever algo grande, que demora para ficar pronto. Sem os fogos de artifício de alguns poemas, que brotam quase inteiros. Depois de quebrar uns ovos, queimar um dedo, esperar crescer e assar, saem do forno e você pode comer, matar a fome de expressão. De tão exultante com a mágica da culinária, transformar uma coisa em outra que mata a fome, você liga para um amigo e convida para comer junto. Não teve isso no meu romance. Não dá para ter uma fome e comer 365 dias depois. Nem dá pra repartir com meio mundo, que as pessoas têm mais o que fazer do que ler o teu romance. Viver isso foi solitário, foi meio maluco e foi muito bom. E foi também oportunidade rara, que sou uma brasileira estilo average guy do Lou Reed, meu corpo tem temperatura de 36,5 oC e eu não vivo só de arte.

 

Moema Vilela nasceu em Campo Grande, MS. Jornalista e escritora, é doutoranda em Letras na PUCRS. Autora de Ter saudade era bom (Dublinense, 2014), espera publicar também esse romance aí, um dia.

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