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Gustavo Melo Czekster

Escrever me machuca. Não é algo que eu faça por prazer, glória ou dinheiro, faço por não ter opção. Ou escrevo ou não tenho sentido, então me machuco: doem as costas, os olhos queimam, o braço tem arrepios de tendinite, o pescoço insiste em enrijecer, os joelhos resmungam depois de muito tempo dobrados. Assim, para sobreviver à literatura, cuido do veículo que ela usa, o corpo e, como sempre, tudo começa quando o verbo se faz carne. Não necessito de silêncio ou de barulho, de muita ou de pouca luz e nem mesmo de um espaço apropriado. Quem dita meu ritmo é o que pretendo contar. Prefiro escrever à mão, pois sinto melhor a história, mas anos de abuso me deixaram com dedos que incham em questão de minutos, então protejo as juntas com esparadrapo e algodão. Não é muito bonito de se ver. Certas histórias pedem mais reflexão e, para elas, uso a máquina de escrever. Existe algo de violentamente obsceno e excitante em ver uma história ser trazida ao mundo à custa de uma série de arremetidas, literatura também é amar e, dessa forma, deve doer na alma. Apelo para o teclado do computador quando a história se esquiva e preciso seduzi-la em um jogo de idas e vindas, tentativas e erros. Algumas são mais manhosas do que as outras, mas é uma questão de tempo e paciência até que elas cedam. No meu processo de escrita, a água ocupa uma posição essencial. Às vezes, quando a história está passando por um momento tenso ou quando os personagens chegaram a algum dilema, necessito ver, sentir, mergulhar na água. É normal que eu tome vários banhos quando estou escrevendo e, às vezes, só percebo quando eles acabam, de tão envolvido na escrita mental. Também lavo as mãos e perco minutos vendo o jato de água acariciar meus dedos. Acalma-me a fluidez da água, a sua capacidade de abrir caminhos, a sabedoria de afastar os problemas e limpar os medos. No entanto, sei que o fazer literário é uma pulsão de morte, como todo ato criativo. Escrever também é morrer e, a cada história minha que se esvai com água e dor, um passo é dado em direção à morte, até o dia em que a curva da vida e a curva da trama se encontrarão no mesmo ponto final.

 

Gustavo Melo Czekster é advogado e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Em 2011, lançou o livro de contos “O homem despedaçado”, pela editora Dublinense.

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