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Tadeu Sarmento 

Trabalho muito, no turno da madrugada, oito horas e vinte minutos por dia, seis dias por semana. O tempo de que disponho para escrever é estreitíssimo, geralmente entre 03h00min e 05h00min da manhã. De modo que atravesso minhas horas úteis (que para mim não têm utilidade alguma, salvo a de sobreviver dois dedos acima da linha da pobreza) como um alcoólatra esperando o fim do dia para tomar seu primeiro copo. Refiro-me, obviamente, a um alcoólatra moderado. Esse primeiro copo para mim é o texto. Assim, não importa o que esteja fazendo, todo o meu dia é direcionado para este único foco, seja ele uma ideia que me atormenta e que quero desenvolver para livrar-me dela; seja ele um amor para o qual desejo escrever um poema. Não importa. Importa que eu permaneça alerta durante todo o dia, sem baixar a guarda um segundo sequer, como um autista regulado por um relógio ou um animal faminto se alimentando de sobras. O que estou de fato fazendo é ressentindo o texto dentro de mim durante todo o expediente, fermentando-o ou destilando-o (embora prefira os destilados) de modo que, quando finalmente sento para escrevê-lo, depois de ter conquistado com suor e paciência o único direito que me interessa (o de estar finalmente sozinho diante da página em branco), o texto já está praticamente pronto. O resto é reescrita, retoque, correção sintática, enxertos cínicos e pontuação, os quais, no geral, são levados a cabo durante meu único dia de folga na semana (que pode ser um sábado ou um domingo, dependendo da roleta-russa das escalas parametrizadas). Óbvio que, com essa rotina, corro um risco maior de me repetir (assim como me repito) ou de cometer erros fundamentais (que são melhores que os acertos secundários). Mas é a maneira que encontrei de adaptar meu ritmo de vida à minha paixão pela escrita. Com o tempo, acredito ter adquirido um comutador mental que me permite passar da imaginação para a realidade sem criar entre esses mundos nenhuma ligação que não a liberdade de transitar entre eles sempre que desejar, como um sonâmbulo de férias, dirigindo, no sonho consciente e sem habilitação, um carro possante. Quando o comutador baixa para a realidade, executo movimentos repetitivos, xerocados, enquanto meu cérebro se torna uma caixa d’água vazia com a tampa aberta para que a chuva encha. Quando o comutador sobe para a imaginação, bem, é como habitar o Paraíso por alguns minutos, pastando ao lado dos leões e dos touros mecânicos. É desse modo que suporto qualquer tipo de emprego estressante que me ofereça o mínimo para comer e seguir escrevendo, vivendo cada dia como um degrau que me impele a pisar no outro, mesmo sabendo que a escada não leva a lugar algum, salvo ao ponto final que a morte um dia colocará sobre minha última página.

PS: Só a título de curiosidade, escrevo direto no computador, em uma escrivaninha de frente para uma parede. Nesta parede há uma foto do Philip K. Dick apontando um Taurus.38 em minha direção. Não tenho janelas, nem filhos, nem esposa. Sou a mais mal remunerada puta full-time da literatura.

 

Tadeu Sarmento, 37 anos. Tem publicados os livros Breves Fraturas Portáteis (Fina-Flor, 2005) e Paisagem com Ideias Fixas (Bartlebee, 2012). Foi um dos ganhadores do II Prêmio Literatura de Pernambuco de 2014, com o romance Associação Robert Walser para Sósias Anônimos (a ser publicado em 2015, pela Cepe Editora). Reclama no http://visoesdeezequiel.wordpress.com/ e no http://pt.scribd.com/LontraHiperborea disponibilizou onze livros inéditos (sete deles romances) rejeitados por editoras ao longo de uma década de má sorte.

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