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James Martins 

Não tenho exatamente um método de escrever. Tenho vários. O que é apenas outro modo de dizer que não tenho nenhum. Mas escrevo muito andando. Ou seja, crio muito a pé, como os peripatéticos. Asas à imaginação eu levo ao pé-da-letra. Costumo também anotar, rascunhar, no que estiver à mão: panfletos de promoção, guardanapos, etc. Depois uso o computador, em casa, para arrumar. Mas tenho boa memória, então, em alguns casos, passo anos trabalhando poemas que nunca anotei em lugar algum. Se eu morrer agora, estes poemas (ou quase poemas) morrem comigo. Desenvolvi também a feia mania de corrigir textos apenas mentalmente. Assim, anoto uma palavra e depois a substituo por outra, mas só na cabeça e na fala, não no grafado. Tenho muita preguiça física de escrever. Talvez daí o meu apego à oralidade, à récita.

Nunca precisei de silêncio para trabalhar. Até gostava, como Villa-Lobos, de labutar concentrado em pleno caos circundante. Contudo, com o passar do tempo, tenho procurado às vezes cantos solitários para pensar melhor. Por contraditório que seja em relação à preguiça física de escrever, uso ainda muito papel e caneta e reviso muito, de modo que alguns dos meus rascunhos tornam-se tão densos que parecem artes-plásticas. Às vezes passo semanas convivendo com a mesma folha de papel toda riscada e re-riscada, enfiada no bolso da calça. Mas também crio direto no computador. “Tudo depende da hora tudo depende da glória tudo depende de embora”. Parte de minha criatividade se manifesta ainda de forma visual e, como eu não domino as ferramentas de design, vez ou outra preciso de outros para arte-finalizar alguns lances.

Não tenho rituais (tomar café, fumar, ouvir música, poltrona especial, etc.) e nem hora do dia e nem local. Escrevo onde precisar e der. Posso fazer poemas num piscar de olhos ou levar anos fazendo um poema. Posso passar dias só escrevendo ou meses sem escrever. Mas a ideia de rigor está sempre presente, mesmo no maior relaxamento. Em tempo: detesto que olhem meus rascunhos. É como se o outro acessasse os meus segredos mais íntimos, aquilo que não deve ser devassado. E ainda, por outro lado, os rascunhos, para mim, em vez de revelar alguma verdade profunda, ao contrário, turvam-na. A verdade (ponha aqui todas as ressalvas necessárias que eu assino embaixo) está naquilo que é dado a ler: no (jamais alcançável) definitivo, no publicado.

 

James Martins é poeta, soteropolitano. Mente tanto a idade que acha melhor nem falar. Planeja estrear em livro, ainda este ano, ironicamente com uma antologia (ou ontologia) poética intitulada HIT’s. Desde 2012 conduz o Pós-Lida (recital de poesia e alguma prosa), evento multidisplicinar que arejou o circuito literário em Salvador e já recebeu convidados como Augusto de Campos, Aldo Brizzi, Edgard Navarro, Glauco Mattoso, Carlos Rennó, entre outros.

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