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André Ricardo Aguiar

Escrevo quando posso, mas como escrever é respiração, bem posso dizer que me acomete uma asma às vezes. Não sei dizer se sou escritor de algum turno, mas respiro melhor com as manhãs. Não começo o trabalho pensando em algo que deve ser feito já. Não me vejo subornando textos. Não observo o dia como uma redoma em que tudo está à mão. Nem banco o cientista maluco nem tento me enquadrar em funcionário certinho, regras, bater o ponto, mesa posta e montada, luz adequada — embora a luz, quiser estar à vontade, se espreguice e vá ficando. Apenas entro no recinto e faço. Eu confio que o quarto barulhento da cabeça vá se arrumando por si só, não admitindo faxina, apenas uma reordenação do que foi acúmulo e poeira.

Gosto da ideia do quarto barulhento, — um misto de aconchego e balbúrdia. Mil ideias que podem se chocar como partículas, o experimento é válido. A sensação de escrever é tênue, fina película de realidade. A escrita está a meio caminho da ideia do gato de Schrödinger, ao mesmo tempo viva ou morta nas apostas e hipóteses do que escrevo. Como nos meus processos, seja no conto ou no poema, na história infantil ou na crônica, que eu vou deixando que o universo do que sou feito vá buscando seu caminho. Pode ser um começo de frase, um clichezinho barato escondido num canto, um atroz preconceito ruminando um arquétipo, a gag de um bando de mariachis desempregados ao redor de um anúncio, um búfalo no metrô, o que seja.

Embora por um tempo tenha me negado ao prazer de utilizar blocos ou cadernos, teimando com notebook e wi-fi, procuro remeter ao modus operandi do papel e do lápis, fingindo rascunhos, borrões, espalhando fichas, etc. Estar em movimento, ouvir pedaços de conversa, pegar o ônibus, sentir os passos e o chão me parecem fixar melhor as histórias ou os poemas. E às vezes a pura leitura em qualquer direção pode soprar a deixa, como o cubo mágico das referências as mais inusitadas; vai girando, vai girando até dar numa combinação que funcione. Nem sempre de mão beijada, claro.

Me entender com os personagens é como a teoria da família estranha: você não conhece, mas foi adotado por ela, vai e visita, vê a casa, põe os troços, a mala, e reconhece, depois de banho tomado e roupa fresca, quem é quem, como se dá o parentesco, as relações, as conversas, quais tipos de rusgas e afeições e aí você vai urdindo sua filiação a este universo, tomando o cuidado de dizer que esta sempre foi sua família, independente de quem se meta a besta ou farsante. Assim é a ficção em que me ponho, torcendo para que haja familiaridade. De preferência, tendo o absurdo como rotina e o tropeço como vantagem.

 

André Ricardo Aguiar é escritor e participa do Clube do Conto da Paraíba. Autor de A idade das chuvas (Editora Patuá), livro de poemas. Sua obra infantil, tanto em prosa quando em poesia, integra o PNBE/MEC, como O rato que roeu o rei (Rocco) e Chá de Sumiço e outros poemas assombrados (Autêntica), livro selecionado para a Feira de Bolonha-Itália. Atua na área de gestão e produção cultural.

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