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Flavio Cafiero

É assim: um mínimo de rotina pra funcionar. Quando estou criando, seja na fase de escrita ou reescrita, acordo cedo. Cedo pra mim é algo entre 7 e 8 da manhã. Pode ser antes também, principalmente quando estou empolgado. Quando passa das 8 já estraga um pouco, mas ainda há salvação. Tomo banho frio. Preparo o café-da-manhã e como em silêncio. Não posso conversar muito nem ler jornal, tento conservar a cabeça limpa, só com os restos do sono. E-mail, Facebook, SMS, Whatsapp: só de tarde. Vou pro meu escritório, sento diante do computador, abro os arquivos, organizo a mesa, as pesquisas, as anotações, retomo o pé do dia anterior. Janela fechada, persiana idem. Gosto de me enfiar numa caverna pra criar: sou muito distraído. Escolho uma música de fundo. Geralmente é música clássica. Bach funciona muito bem, porque estimula o pensamento, tem camadas de narrativa, as tramas vão se misturando às ideias. Sempre recomendo Bach pra escrever, mas às vezes eu uso um desses serviços de streaming, que são bons. A música não pode ter letra e o volume precisa ser quase subliminar. E aí solto a mão. Pego embalo fácil. Há os dias áridos, mas não acredito em sentar e esperar inspiração. Inspiração não existe, essa fumacinha que chega e a gente inala. Não pra mim. Muitas das boas coisas que escrevi nasceram de rotina e sensação de tarefa. O que não quer dizer que não haja prazer. Vou escrevendo. Paro algumas vezes para dar uma volta pela casa, fazer mais café, beber água, comer algo. Às vezes deito no tapete da sala e faço uma meditação relâmpago. E por aí vai. Quando sinto que as coisas estão engripando, já penso em parar. Quando releio e não gosto muito do que escrevi, paro. Não caio nessa armadilha. A escrita cansa. As palavras têm que dormir num leito provisório.  No dia seguinte, geralmente, as sensações se invertem: fico insatisfeito com o que gostava e vejo valor no que não gostava. Há um equilíbrio que se conquista pelo retrabalho, pois sempre releio o que escrevi na véspera e mexo no material antes de criar mais. Volta um pouquinho, avança um pouquinho: as coisas vão se equilibrando. Por volta do meio-dia a fome grita. Paro e vou preparar o almoço. Como vendo TV. À tarde respondo e-mails, entro nas redes, me reconecto com o mundo. Mexo em outras coisas que esteja trabalhando em paralelo.  O dia vai seguindo e a ordem vai aos poucos se transformando em caos: leio, vejo filmes, escuto música, sem regras. Quando a criação insiste em não me abandonar e fico angustiado, uso duas táticas: sair e pegar um cinema (sempre com um caderninho) ou tomar um banho quente. A água tem o poder de desfazer muitos nós criativos. Quando vem a iluminação, tomo nota pra usar no dia seguinte. É assim. Fins de semana são pra descansar. Raramente escrevo ao sábados, nunca aos domingos. E tem funcionado. Por enquanto. Sempre por enquanto.

 

Flavio Cafiero é carioca e vive na cidade de São Paulo. Formado em comunicação social pela UFRJ, é também dramaturgo e roteirista. Seu romance de estreia, O frio aqui fora (Cosac Naify, 2013), foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti (2014). Dez centímetros acima do chão (Cosac Naify, 2014), antologia de contos vencedora do prêmio Cidade de Belo Horizonte (2013), e O Capricórnio se aproxima (e-galáxia, 2014), novela lançada apenas em formato e-book, são suas obras mais recentes.

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