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Ryan Mainardi 

Já tive muitos processos criativos. A maioria envolvia álcool, cigarros, mulheres, madrugadas e ressacas. Tudo em doses homeopáticas – ou não – ao longo de uma década onde às vezes a literatura rendia. Acho que de tanto brigar com as palavras, tu vai ficando escaldado. Pra mim o único processo criativo que se mostrou eficaz – na medida do possível – e duradouro foi a leitura. Acho que foi o Moacyr Scliar quem disse que a escrita é uma sequela da leitura. Pois pra mim isso se mostrou verdadeiro. Meus bloqueios literários nunca foram apenas de escrita, mas também de leitura. Estão intimamente ligados. A leitura me é tão essencial quanto o papel e a caneta para escrever. Dos vícios, o que restou foram as doses cavalares de cafeína e o toc de ângulos retos na mesa.

Minha produção foi migrando ao longo da última década. Começou aos 18 anos nas noites. Conforme o tempo foi passando, ela foi se aninhando com mais conforto pelas madrugadas, até que, não raro, amanhecia escrevendo. Agora que me aproximo dos 30, as manhãs têm sido minhas colaboradoras. Me pergunto se dentro de uma década eu completarei o ciclo e voltarei para as noites?

Não importa. O importante é o silêncio. O cheiro do café. Papel e caneta. Porque sim, riscar é importante. Quase nada do que escrevi foi direto no computador, e daquilo que foi, quase nada prestou. Li em algum lugar que escrever à mão é um processo neural completamente diferente do que escrever no computador. Acho que há escritores que funcionam bem nas duas formas – mas eu já escolhi a minha trincheira.

A realidade tecnocrata do século 21 me desagrada. Mas o passado, excluídos os romantismos, parece brusco demais para um ser da nossa era. Acaba que o único mundo possível está nos livros. Ali está o nosso lar, piegas e verdadeiro. Porque todo clichê tem um fundo de verdade. E só a literatura é verdade sem ser clichê.

 

Ryan Mainardi é escritor. Nasceu em 20/08/1987, em Sobradinho, mini-cidade do centro-cerra gaúcho. Ao longo da vida morou pelo menos alguns anos em seis cidades diferentes, do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo. Começou a escrever aos 18 anos, quando a vida parou de fazer sentido. Publicou vários contos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE). Na época do falecido orkut, rondava pelos cantos do Bar do Escritor. Cursou Jornalismo. Surtou, largou a faculdade e fugiu para morar em um albergue em Buenos Aires. Em 2009 finalmente se fixou em Porto Alegre, onde se aguenta até hoje apesar da profissão escritor e da conta sempre no vermelho. Cursou Letras. Largou por não se adequar à infindável babaquice da academia. Concluiu o Curso de Certificação Adicional em Escrita Criativa na PUCRS, o qual, por burocracias acadêmicas, nunca recebeu e por visto nunca receberá o diploma. Ryan não tem sorte com a academia. Fez cadeiras de produção com Charles Kiefer e Oficina de Criação Literária com João Gilberto Noll. Em 2013 publicou seu primeiro livro, o romance Palimpsesto. Inscreveu-o em cinco prêmios literários de destaque. Não colheu nem uma mísera lista de semi-finalista. Em 2014 quase morreu inúmeras vezes e perdeu metade da memória do ano para o álcool. O que o levou a parar de beber, de fumar, virar vegetariano e adotar uma rotina rígida daquilo que se pareça com um ser humano. Para coroar o ano, sai o seu segundo livro, poema limpo. Um poema longo em diálogo direto com o clássico poema sujo de Ferreira Gullar – poema aliás elogiado pelo próprio Gullar, em carne, osso, belos cabelos, papel e caneta. Ryan segue esperando ser levado a sério como escritor. 

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