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Fernando Joner

Se posso dizer algo sobre minha rotina como escritor é que ela não funciona. Não sou desses que pulam da cama as oito horas da madrugada para espremer o cérebro na frente do computador antes mesmo de escovar os dentes. Escrevo na hora que me da na telha e como raramente escrevo algo que preste tenho que escrever o suficiente para ter o que jogar fora. Não importa se escrevo à mão, em folhas soltas, no computador do escritório ou numa maquininha de escrever de brinquedo dos anos oitenta. Escrevo contos e capítulos para deletá-los – quase todos. As vezes os deixo em quarentena dentro da gaveta e depois da gaveta vão para o lixo – o que sobra desse napalm talvez seja literatura.

Tenho que escrever para não ficar louco – ou para continuar louco. Em algumas épocas estou sempre povoado de personagens e atento às surrealidades que sou exposto diariamente. As personagens me procuram, saem do ralo da pia, detrás dos caixas eletrônicos, sussurram bobagens nos meus ouvidos enquanto estou tentando dormir cedo para dar aula na manhã seguinte. São como formigas que brotam por geração espontânea, caem entre as palavras e caminham nas entrelinhas. Ignoro-as por um bom tempo até que elas me capturam e me forçam a dar-lhes existência.

Em geral escrevo em sábados e domingos, mas faço muitas anotações durante a semana. Recentemente tenho feito algum tipo de storyboard para cada cena ou capítulo do romance e tem funcionado; quando sento para escrever gasto menos as teclas. Em boa parte do ano ou do semestre letivo escrever torna-se uma vaga e latente lembrança. Quando o ponteiro muda para a literatura, ela torna-se o epicentro dos dias e monopoliza meus interesses, de forma que só consigo descansar das personagens e dos enredos depois que coloco-os no papel para ver se funcionam ou se são natimortos. Minha produção se da por espasmos que ocorrem em feriados, finais de semana e férias.

 

Fernando Joner nasceu em 1980, em Novo Hamburgo (RS). Biólogo, doutorou-se em Ecologia pela UFRGS, é professor adjunto na UFFS onde leciona nos cursos de Agronomia e Engenharia Ambiental. Foi destaque no concurso de contos da Feira do Livro de Porto Alegre em 2006. É autor de “Ingressos para um naufrágio e outros contos”  publicado pela e-galáxia em formato eletrônico, disponível na Livraria Cultura, Amazon, Saraiva, entre outras.

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