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Paulino Júnior

Émile Zola tinha grafado em sua lareira a expressão latina Nulla dies sine linea (“Nenhum dia sem linha”). Na falta da lareira, tenho a sentença tatuada no antebraço direito logo abaixo de um morcego torto e borrado que apelidei de Lacan. Mais do que referências diretas e indiretas, a expressão serve de memento para não confundir desejo com realidade. O indivíduo é o ato, não o que pensa ou deseja ser, e se constrói na medida em que providencia a realização de suas pretensões. A ação substitui a ilusão. Portanto, esperar pelas condições ideais plenas para escrever é a melhor maneira de se refugiar em uma imagem narcísica, com o álibi de que o mundo nunca te dá chances de voar.

Há doze anos tornei-me um homem sem profissão sob os auspícios da mulher que aceitou ter um filho meu. Aliás, há certo paralelo entre criar filho e a escrita literária: primeiro pela urgência imposta – o aqui e agora –, depois, mais vale infringir orientações pedagógicas do que se omitir e a criatura não ter os valores que você acredita.

Estou de pé logo cedo e, entre o café que eu mesmo preparo e a labuta nas palavras, costumo ler. Leio com atenção tanto os clássicos quanto os contemporâneos. Não sofro de angústia da influência nem tão pouco rivalizo. Ao contrário, literatura gera literatura, fico ainda mais instigado para criar meu texto e contar minhas histórias. Também leio obras nas áreas de filosofia e sociologia – ajudam a não balbuciar.

Desenvolvo os contos no verso das dissertações e teses que minha mulher participa como banca (já me disseram que dou uso melhor para elas). Escrever direto no computador me dá sono (e para despertar acabo vendo pornografia, que ajuda, mas dispersa). Dá para dizer que escrevo no computador quando deixo para passar a limpo e reviso. Centro fogo na ficção até os ‘intervalos’ que envolvem os afazeres domésticos – incluindo faxina. Tarefas que realizo na boa, mesmo porque me desagrada a divisão social do trabalho de que quem faz serviço intelectual não presta o braçal e vice-versa.

Necessito de um cochilo logo após a louça do almoço. Levanto e recomeço (com pequenas variações, como a do café para o uísque, por exemplo). Há dias, no entanto, que consagro à vagabundagem. Aliás, como me considero um escravo do hábito, o ato de vadiar já se incorporou à minha rotina. Assim, sigo profissional pelo desejo e amador pela razão.

Paulino Júnior (Presidente Prudente/SP, 1979) é autor de Todo maldito santo dia – selecionado no Edital Elisabete Anderle (Fundação Catarinense de Cultura) e premiado pela Academia Catarinense de Letras como ‘Melhor livro de contos publicado em 2014’. Em 2015 lançou o livro-conto Bife a cavalo para a coleção Coice de Porco (Butecanis Editora Cabocla). Foi convidado para eventos literários como 5º Festival Nacional do Conto e Flipobre. Seus contos figuram em diversos periódicos e coletâneas – Cobain; O outro lado da notícia; Concurso Histórias de Trabalho; Revista Coyote; Jornal Cândido etc. Vive em Florianópolis desde 2005 e atuou como cronista semanal no jornal Notícias do Dia, de 2014 a 2016. Segue sobrevivendo no ofício de afiar faca e tesoura.

 

 

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