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Thais Lancman

Para mim o ideal seria escrever à noite, mas sou uma pessoa matutina. Acontece, então, que às vezes sacrifico um dia inteiro de produtividade por ter escrito umas poucas páginas de manhã, ficando sonolenta e mal-humorada. Escrever para mim é uma atividade mentalmente exaustiva e pouco prazerosa enquanto ela ocorre, a satisfação vem depois. Como diria Dorothy Parker, ídola procrastinadora: I hate writing, I love having written. Por isso gosto de metas, desde que facilmente alcançáveis. Mil caracteres por semana, terminar determinado conto em um mês.

Não consigo escrever com muito barulho, mas não me incomodo que tenha mais alguém em casa ou no mesmo cômodo. Vez ou outra, ouço música instrumental (não quando estou revisando). Sou adepta da técnica Pomodoro: 25 minutos de trabalho e 5 de descanso, e nesses intervalos bebo água, como alguma coisa e vejo as redes sociais. Frequentemente são mais que 5 minutos de descanso, mas tudo bem.

Acho que o ato físico da escrita é uma parte importante do processo. É muito ruim quando a cabeça está a mil e as mãos não correspondem, por isso começo escrevendo alguma besteira, uma ideia futura que dificilmente vinga, preciso de um aquecimento, algo que me coloque no ritmo para então caminhar no que estou trabalhando.

Quando escrevo, sempre em casa, nunca na cama, sinto como se estivesse montando um quebra-cabeças, pois vou convertendo pedaços de diagramas (esses sim feitos em ônibus, cafés, durante uma sessão de cinema) em narrativa. A escrita é uma atividade mais fria e metódica do que imaginava ser, talvez por isso com frequência eu me assusto com o resultado, quando volto a ele dias depois, parece algo feito por uma máquina, não por mim.

Os diagramas que antecedem a escrita passam por um processo totalmente diferente. São feitos à mão, passados à limpo diversas vezes e costumam levar meses para se solidificarem. Para cada projeto, um caderno, em cada caderno, diversas versões do mesmo diagrama. Envolvem referências em músicas e filmes, ideias soltas, cenas que farão parte da narrativa. A história nasce desse gráfico, primeiro em algumas frases, depois em um roteiro tosco e, quando não posso enrolar mais, ela ganha corpo.

 

Thais Lancman nasceu em 1987, em São Paulo. Jornalista de formação, já ensaiava desde o início da faculdade a partida rumo à ficção, embora tenha concluído o curso e trabalhado durante três anos como repórter. Hoje, além de escritora, estuda o autor americano Saul Bellow. Em 2014, Thais publicou a novela Palito de Fosfeno, seu primeiro livro. Thais ainda ocupa o seu tempo como bailarina de dança contemporânea e fazendo pão, com amor e dedicação inversamente proporcionais ao talento.

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