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Kleber Felix

Por que cê escreve? Eles costumam me perguntar. Daí eu escolho uma das frases rápidas do meu repertório, depende da situação: Eu escrevo pra me vingar. Escrevo por tédio. Escrevo pra deixar as merdas pra lá, pra deixar as coisas mais bacanas na minha cabeça, pra me enganar. Escrevo por vaidade, pra tentar comer alguém e acordar depois das 15. Eu escrevo por que sou a merda de um babaca.

Tenho 30 anos. Bebo. Tenho amigos. Moro sozinho. Tenho namorada. Fumo. Família bacana. Uns livros publicados por um Selo Independente que criei com essa finalidade e agora também publicando alguns brothers da minha laia. Não tenho carro, mas uma bike. Congestiono o tráfego. Quatro gatos. Os chutes no meu rabo já não doem mais. Sou quase feliz. Vendo meus livros nos bares. Falo com as pessoas. Quando me perguntam por que escrevo, é por que antes eu disse que sou escritor.

Escrevo invariavelmente à noite. Se possível acompanhado dum trago qualquer.  Escrevo ficção. Basicamente ficção. E de alguma forma, escrever meio que preenche o buraco no peito, tá ligado? Não sofro escrevendo, como aconselhou Dostoiévski. Mas tem esse maldito buraco. Não tenho traumas de infância. O buraco sempre existiu.  Daí eu escrevo. O buraco continua ali, incorruptível. Mas escrevendo eu sou melhor. Malvadão, mais fudido, o buraco que se dane, saca?

Depois de explodir o mundo ou criar qualquer coisa bacana, vem a edição. Tranquilo. Imprimo uns 20 exemplares de dois títulos na impressorinha laser da Raquel (minha namorada), daí é corte, grampo, cola e cair pra rua, pros bares.
Vender livro é uma bosta. Ter que conversar com as pessoas e ser simpático (é mais fácil assim, acredite) é foda. Mas é o que eu faço. Porque pra conseguir passar as noites escrevendo ou simplesmente enchendo a cara, sem ter um emprego; vou vender os livros. Já tive empregos demais prum cara da minha idade. Sei qual é.

De modo que vender livro é só consequência. O lance é escrever, confrontar o buraco, varar madrugadas debruçado num parágrafo que nunca vai alcançar a perfeição, meter-me em encrencas sem tamanho sem esperança alguma de sair delas ou simplesmente rir das merdas do mundo, das minhas próprias merdas.

Às vezes, quando saco o sol dando as caras, acendo um cigarro, derramo mais uma dose no copo, escolho a trilha e tenho essa sensação de que o buraco tá menor. Daí fico pensando que quando me perguntarem de novo, por que eu escrevo. Vou dizer na mó sinceridade que é pra tapar o buraco, aos poucos. Mas de verdade, sei que é inútil.

 

Kleber Felix queria ser guitarrista ou cantor de blues, mas não passa duma espécie de hiperativo-preguiçoso. Vive em São José do Rio Preto- SP. Em 2008 criou o selo independente BAR editora por onde publicou contos, peças teatrais, poemas e um romance de sua autoria, dentre outros títulos de amigos. Seu novo romance “Fantasmas não respeitam geografia” sai pela editora Kazuá, com lançamento marcado para 9 de Abril. Escreve no blog: www.deumjeitoblues.blogspot.com

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