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Lucas Barroso

Sou como aquele turista japonês que tira foto de tudo, de todos e a qualquer momento. A diferença é que eu não acho graça, nem fico rindo pra qualquer um ou para qualquer coisa. Outra diferença importante é que não uso máquina fotográfica e, sim, papel e caneta. Entretanto, tem coisas que não são possíveis registrar. E são exatamente essas que busco. Eu sei, é uma besteira sem tamanho. E, além disso, incomoda muita gente. Mas quando tudo é novo, fica inevitável não registrar. Às vezes, acordo num sobressalto. E fico acordado, enquanto o sonho não vem. Noutras, perco um compromisso. Há também casos que não presto atenção no que há em minha volta – família, amigos, trânsito, temperatura, etc – , porque um verso insiste em tomar boa parte do meu cérebro limitado. Os versos sempre tem prioridade. Qualquer verso. Já peguei gripe, já perdi o ônibus, já fui atropelado e já amei demais por culpa da Literatura. Só que a vida acaba virando um faz de conta desgraçado. E os outros não estão nem aí pro seu autistmo. No começo, sinceramente, achava que era um dom. Depois, a “dádiva” se tornou uma abnegação, missão ou questão de sobrevivência. Hoje, percebo que foi e é só uma sina, que ultrapassou o limite da teimosia, do bom senso. Um cachorro vadio, que eu tirei da rua, lambe diariamente minhas feridas e me leva para a rua, para tomar um pouco de sol ou uma bola de sorvete de flocos. Se não fosse por ele, acho que jamais sairia de casa. Porque o mundo é só um lugar para matar o tempo. O mundo é só um lugar para tropeçar em caminhos mal sinalizados. Tem dias que escrevo coisas honestas, que me tiram um sorriso da cara. Noutros, parece que não valeu a pena tentar. Foi um pecado ter sujado tantas folhas. A Natureza ainda vai me cobrar essa conta. Eu sei disso. Minha mãe me ensinou a rezar. Mas eu me neguei a pisar na igreja. Eu me neguei a agradecer. Agora, já é um pouco tarde. Minha carcaça acabará perdendo a queda de braço para a Literatura. Parece um pouco trágico dito assim, mas é a ordem natural das coisas. A Literatura sempre vence no final.

 

Lucas Barroso – é escritor, nascido em Porto Alegre. Autor de Virose (2013), seu romance de estreia, pela editora Bartlebee. Seu segundo livro, O Ano dos Mortos (poesia), está em edição ela mesma editora, e deve ser publicado esse ano.

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