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Bellé Jr.

Meus rituais de escrita têm início no começo da noite. Apesar de ateu, sou sujeito de rituais. Organizo a mesa, escolho e faço o chá, dichavo um pouco de maconha, abro os arquivos recentes e releio tudo enquanto bebo o chá, enrolo o baseado e vou me acomodando na poltrona dos meus pensamentos. Tranco a porta do quarto, desligo o celular, desconecto o wi-fi – vez ou outra, enfio os fones nas orelhas e deixo um instrumental rolando -, então escrevo até os olhos arderem ou a imaginação esvaziar. Escreveria de manhã caso pudesse, gosto de imaginar quão diferentes seriam meus textos – e algumas poucas poesias, já que essas são essencialmente espontâneas e nascem sem hora marcada – caso os tivesse redigido com o sol nascendo e o frescor das ideias da manhã. Mas lá fora há o capitalismo. Bater ponto, chefe, horários, contas. Juro que tentei dormir cedo e acordar mais cedo ainda, tinha comigo que o frescor a que me referi doaria um tanto de luz às palavras. Mas tudo que consegui foi sono uma tela branca parcamente rabiscada. Me conformei com a noite e já não me assusto quando noto que é madrugada.

Não acho que é imprescindível trabalhar todos os dias num romance, numa novela, num conto ou seja lá o que for. Existem histórias que precisam de tempo, de ar fresco, de lentidão. Cabe ao escritor ter sensibilidade e saber quando se deve esperar, quando se deve insistir. Confesso que ando escrevendo com menos periodicidade do que gostaria, mas também reconheço o peso que o fim do ano tem no lombo de todo trabalhador. Com o tempo, aprendi que existem doses – sempre imprecisas – de espontaneidade e planejamento para que uma boa história nasça e se reproduza. Matutar o esqueleto da narrativa não a esvazia da alma, da carne, dos miúdos. Por isso, aprendi o valor e o prazer de imaginar as linhas gerais do enredo antes de escrevê-lo, só para depois bagunçar tudo e me dar conta de como me deixo levar por meus próprios influxos. Recomendo a viagem.

 

Bellé Jr., é poeta nascido no Paraná e radicado em São Paulo. Em 2010 publicou de forma independente o primeiro livro de poesias, O Sonhador Que Colhe Berinjelas na Terra das Flores Murchas. É também jornalista, autor do livro reportagem Balaclavas & Os Profetas do Caos (Livro Novo). Sua mais recente obra é uma longa poesia em romance chamada Trato de Levante (Patuá). Todos os livros estão para download gratuito em sua página: http://juniorbelle.com/

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