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Julie Fank

Escrever é matar uma tartaruga. Se você mata e corta a carne, ela ainda se mexe horas depois de morta. Fica ali, pulsando – no ritmo do seu remorso. A ciência dá a esse fenômeno o nome de reflexo medular. Eu dou a isso o nome de literatura. É isso que preenche a vida burocrática nos meus miniexílios semanais – uma rotina que me divide entre Curitiba e Porto Alegre por conta do doutorado e da escola. Viajando bastante, tenho mais encontros marcados comigo e aproveito a solidão para lidar com esses espasmos da memória, da escrita e das coisas todas que pulsam aqui dentro. O problema tem sido não estar no meu espaço – o que me obriga a dispensar métodos e obedecer ao desconforto e à escrita que pula para fora, independentemente de tempo ou aparatos físicos. Dá um certo desespero às vezes, mas o próprio desconforto vira tema. Apesar de ser declaradamente analógica, as ferramentas digitais têm ajudado, o gravador e o evernote, particularmente – mas tenho sérios problemas com metas, e prazos, e organização dos papéis que ainda não passei a limpo, tenho caixas desde 2006. Escrever exige respiros e a vida non-stop não tem permitido muito – nos pequenos intervalos, escrevo. Burlo a ânsia desordenada de um fim de semana em que me desatino a escrever, por exemplo, parando de comer esta pizza que pedi um minuto exato antes de fecharem o delivery, mas não consigo parar de mastigar. É a pizza que vai ser meu café da manhã e meu almoço e minha janta num fim de semana com textos para tomar conta – uma espécie de plantão de texto. Como sempre. Escrevo em blocos apertados entre outros compromissos – e aí não paro para nada. Não paro. A pizza não é como a carne suculenta da tartaruga que ainda vai ser morta, mas dá para o gasto. Escrever é não parar de mastigar. Uma vez viajei sem ter onde anotar e faz 5 anos que essas memórias me perseguem e aparecem – sempre quando eu não posso com elas. Ecos. Escrever é repetição voluntária [e respiração sincera]. As pessoas morrem quando param de respirar. Escrever é um revezamento constante entre a morte do outro e a matança de animais indefesos. Escrever é matar essa tartaruga gigante que, diria Monterroso, quando acordamos, ainda está ali. A carne é boa – você admite, depois de comer -, mas difícil de digerir. É a tartaruga, ela ainda estava se mexendo. Respirando. ? – ou são espasmos. Servem no casco essa escrita indefesa. Quando a gente serve, é porque já paramos de respirar. Morremos um pouquinho a cada texto, todo mundo diz. Eu mastigo o texto depois de entregar. Fico mastigando, mesmo já tendo matado. Deve ser o remorso, esse reflexo medular. É bem desconfortável. Se não fosse, seria outra coisa – não literatura.

 

Julie Fank é professora, roteirista, revisora e já atuou no mercado editorial local como editora de revistas de comportamento, arquitetura e cultura. É fundadora da Esc. Escola de Escrita e escreve. Com formação em Letras e mestrado em Literatura Comparada, hoje, se divide entre a escola, recém fundada em Curitiba-PR, e o doutorado em Escrita Criativa na PUC-RS, em Porto Alegre. Está tentando contornar a poesia e despistar a prosa na escrita de seu primeiro livro. Ainda não sabe se vai ser poesia ou prosa – para essas coisas, ainda não inventaram ultrassom.

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