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Carla Cortegoso

Escrever já foi para mim apenas sangrar, chorar e tirar a fórceps.

Quando comecei a colocar uma palavra ao lado da outra, ainda uma criança/adolescente, em folhas de caderno, era apenas um grito, uma dor tão profunda que precisava sair, como vômito.
Assim, aprendi que eu precisava escrever. Não é que eu gostava de escrever, eu apenas escrevia para sobreviver. Como respirar ou comer.
E escrevia apenas para mim. Então o processo acontecia sempre que eu estava na lama, na vala, no escuro, no deserto e sozinha. E todo lamento virava gaveta.
Sou publicitária de formação, e trabalhei quase 10 anos com isso. E escrever, nessa época, era um projeto paralelo sempre a ser concluído, nunca terminado e que incomodava bastante.
Agora, nesse exato momento da minha existência, escrever é uma prioridade, uma profissão. Ainda um sonho, mas um ofício. Que eu me permiti sonhar e realizar todos os dias. Ainda não sou remunerada, me sinto sozinha e é difícil. Mas eu acredito.
A vontade de não voltar para agências de propaganda, me fez me agarrar nas bordas dos meus textos como uma tábua de salvação. Mais uma vez. Só que fora das gavetas. E isso revirou o processo criativo de ponta cabeça e colocou na posição certa.
Hoje, eu escrevo quando estou feliz.
Escrevo quando estou reflexiva.
Escrevo quando quero gritar, discutir, debater.
Escrevo meu ponto de vista.
Escrevo quando tenho dúvida e certeza.
Escrevo.
Acordo tarde, porque nunca gostei de acordar cedo. Passo um café e a agenda do dia e me forço a cumprir todas as atividades para que nada fique procrastinado, virando ruído pro meu processo criativo.
Tudo para mim hoje é material de trabalho. O vizinho, o porteiro, minha família, amigos, amores, filmes, séries. Eu me coloco nas melhores situações de vida para poder escrever sobre elas. E isso tem me impulsionado a viver cada vez mais coisas incríveis. E quando estou aparentemente fazendo nada, na verdade estou escrevendo por dentro.
Todos os dias eu preciso escrever alguma coisa, uma frase, uma palavra, uma anotação, um poema, uma prosa, uma ideia. Ou viver essas coisas.
Ando com um caderninho na bolsa, pra anotar qualquer letra. Ou vai no celular mesmo. Ou no guardanapo. Anoto o que já escreveram, anoto o que os amigos dizem, anoto o que minha alma fala.
E normalmente a tarde é a hora em que eu sento, junto os temas, as palavras, as músicas e as pessoas do momento. E tudo isso vira texto. Mas ele já estava lá, sempre esteve.
As vezes vem em forma de poesia, as vezes de prosa, as vezes de citação. As vezes eu nem escrevo, mas falo para quem quer ouvir. Hoje eu simplesmente deixo sair na forma que a palavra quiser. Antes ela saia em pedra no rim.
Sempre leio em voz alta, nunca refaço quase nada, as vezes gravo pra sentir o sentimento ouvindo de fora.
E publico no meu site, e mando pro mundo. Um mundo ainda pequeno, feito de amigos e família. Mas que já é um lugar fora de mim.
E uma coisa muito importante sobre o processo todo, é que hoje eu tenho tempo de escrever. E não apenas de redigir, e sim de viver, perceber, refletir, sentir, meditar, pensar em nada, em tudo, criar, debater comigo mesmo e com os outros, só absorver a vida que antes era tão corrida e hoje é tão calma.
Escrever pra mim hoje é a conquista do tempo e espaço.

 

Carla Cortegoso já foi empresária, laranja, secretária, redatora, coordenadora de criação, teve uma marca de roupa, foi freela e infeliz e hoje escreve pra que se aparecer em uma entrevista, possa ver abaixo do seu nome escrito: escritora. E enquanto isso, faz prosa, poesia, projetos e posts com alma e com calma no http://calma.ai

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