Pular para o conteúdo

Roberto Denser

Escrevi meus primeiros textos em uma Olivetti ET Personal 50 que ganhei de presente do meu pai: 100 mangos numa loja de antiguidades de João Pessoa. Era antiguidade porque computadores já estavam se popularizando, mas ainda era possível comprar fitas pra ela em qualquer papelaria do centro da cidade. Eu tinha 16 anos, e quando me sentava diante da máquina de escrever, escrevia. Ela não servia pra mais nada além disso: não me dava acesso a redes sociais, não exibia vídeos, não me permitia comunicação imediata com outras pessoas. Escrevia, e isso era tudo. Portanto, quando me sentava para trabalhar, me espremia numa pequena mesa de madeira (dessas escolares, que minha vó conseguiu sabe lá como), onde só havia espaço para a máquina e para o meu cinzeiro (as folhas em branco eu colocava na abertura de baixo, onde na escola costumávamos guardar os livros), e escrevia por horas: téc téc téc téc téc plim (mentira, a Olivetti era elétrica e não tinha o plim), e só parava depois de oito, dez páginas em espaço simples. Meus primeiros contos (jamais publicados) foram escritos assim.

Agora tudo mudou: escrevo num software específico para escritores, uso um notebook Dell sobre uma escrivaninha espaçosa instalada num home-office equipado com tudo o que preciso: impressora, livros, blocos de notas moleskine, conexão wi-fi, garrafa de café (ou chá, ou água) e um ventilador (o ar-condicionado ainda não está dentro de minhas condições). Parece ideal ou quase isso? Concordo, mas por que diabos minha produção diminuiu em pelo menos 90% em relação à época da Olivetti? Pensei sobre isso durante algum tempo e percebi que a resposta é simples: quando sento diante do computador, quase nunca escrevo. Digo, não trabalho. Faço qualquer outra coisa: mantenho conversas vazias nas redes sociais, onde também vez por outra fomento discussões inúteis ou simplesmente me distraio com “o outro” (essa abstração), assisto vídeos no Youtube, séries ou filmes no Netflix, leio portais de notícias, ouço música, ou seja: tudo o que um computador conectado à internet permite, exceto escrever.

Tudo bem: consigo escrever um texto ou outro pro meu blog ou para algum site, revista, projeto (como esse aqui), mas não é desse tipo de escrita que estou falando, e sim da escrita literária, sobretudo a de romances, projetos que pedem um fôlego maior, digamos assim. O que resolve o problema nesses casos é o meu apego à deadline (sou um excelente cumpridor de prazos), acredito mesmo que the ultimate inspiration is the deadline, como dizia o Nolan Bushnell, fundador da Atari, apesar de hoje me encontrar numa luta diária para me disciplinar e concluir o romance no qual venho trabalhando há meses. O que faço? Escrevo off-line, sempre no mesmo horário, e uso um recurso do Scrivener que transforma o processador de textos numa enorme página do tamanho da tela: tudo para simular o foco que perdi com o advento da tecnologia. A deadline foi dada por mim e ó: tem funcionado.

 

Roberto Denser é escritor paraibano radicado na cidade do Rio de Janeiro. Ex-estudante de Letras e bacharel em Direito, trabalhou como ajudante de açougueiro, vendedor ambulante de sandálias magnéticas, professor de português substituto, agente censitário e jornalista freelancer. Publicou o livro A Orquestra dos Corações Solitários, onde reúne contos sobre a solidão inspirados nas músicas dos Beatles, além de contos em jornais, revistas e antologias.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Comentários

Manu da Italia em Fabio Rabelo
Fabio Rabelo em Fabio Rabelo
Maria Dolores Wander… em Maria Dolores Wanderley
Cristiano Gabriel em Gregory Haertel
Ana Lucia em Hugo Pascottini Pernet
%d blogueiros gostam disto: