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Wander Shirukaya

Fui convidado a falar um pouco sobre a rotina de criação e produção literária aqui no 2000 Toques. Um dos pontos que os escritores costumam levantar é sobre música na hora de escrever. Afinal, é possível ter algo como uma trilha sonora para a narrativa/poesia?

A minha relação com a música é bastante especial. Pesquiso sobre ela, toco um instrumento (guitarra). Logo, não vejo problema em escrever enquanto ouço música – algo que muitos colegas abominam, devido ao fato de isso lhes diminuir a concentração. Entretanto, vejo que é possível ir mais além da música como pano de fundo, que está ali apenas para inspirar. As diferentes vertentes sonoras, além de cumprirem com o papel de suscitar novas ideias ao texto literário, podem estar tão envolvidas no processo de criação a ponto de se tornarem indissociáveis dele.  Costurar músicas é um ato bastante saudável, que contribui para relações intertextuais diversas, assim como muitos colegas fazem mesclando elementos das artes plásticas ou do cinema à literatura. Sendo assim, é bastante comum que, para mim, uma citação à banda, artista ou obra musical não seja meramente um adorno, mas um convite a uma nova leitura sobre o evento narrado. Sabe quando você vê a cena de Alex espancando o velho, o forçando a assistir o estupro de sua mulher em Laranja Mecânica, e de repente você ouve Singing in the rain? Tal cena é um bom começo para que se perceba o quão rica é a intersemiose da música com outras expressões artísticas. Se no exemplo que citei, dado que se refere mais ao cinema, toda a importância desse cruzamento de discursos de que falamos é flagrante, o mesmo não o é quando falamos de literatura. Vejo poucos autores relacionarem a música dessa forma em seus textos – algo que o grande Machado de Assis já explorava (lembrem-se de Trio em lá menor, O machete e Cantiga de esponsais, só para citar alguns). Acredito que, expressando essa minha paixão pela música, que está diretamente ligada a meu processo de criação (mesmo agora, redigindo este comentário, estou ouvindo algo), outros colegas possam ver de modo mais aberto a música como ferramenta inspiradora. Escrevo mais no período da noite (já que meu ofício de professor costuma me tomar as tardes), muitas vezes com headphones, e até hoje meus personagens só tem a agradecer. Se seus personagens forem tão legais quanto penso, que tal lhes apresentar algumas trilhas sonoras?

 

Nascido em 1980, Wander Shirukaya é Mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB, onde estudou o fantástico na obra de Lygia Fagundes Telles. É também desenhista, músico e escritor; publicou Balelas (2011, Ed. Mutuus – RJ) e Ascensão e queda (2015, Cepe Companhia Editorial), vencedor do II Prêmio Pernambuco de Literatura; participou das antologias Contos de Sábado (2012, Manufatura – PB) e Goiana Revisitada (2012, Silêncio Interrompido Edições – PE).

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