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Henrique Rodrigues

Fui convidado a escrever aqui no 2 mil toques sobre minha rotina de escritor. Confesso que fiquei aliviado ao saber que é um site de literatura e não uma megamaratona de exames de próstata. É que, beirando os 40, nos chega toda essa convergência, que é, por natureza, analógica e digital ao mesmo tempo. E cá fico imaginando se teria a mesma dúvida caso o site se chamasse Dois dedos de prosa.

Trocando em miúdos, para mim o tal processo é isso aí de cima: buscar o duplo – quando der, o triplo – sentido das coisas, transformar um pequeno soluço em solução e ir reconstruindo a realidade para que ela fique menos ordinária. Porque o mundo anda denotativo pacas, sabe? Daí que a literatura seja uma forma de tentar deixar o real menos inflexível, porque isso ainda pode nos levar à extinção, ou nos reverter às cavernas, sem nem direito a um platãozinho para fazer alegorias.

Trabalho desde os 14 (numa barraca de cachorro-quente, mas logo depois evoluí par ao McDonald´s), de modo que sou escritor de contraturno, como a maioria aqui no país. Estou publicando meu décimo livro e primeiro romance (O próximo da fila, pela Record), que foi escrito no tempo que tive de cavar, abrindo mão de outras coisas. Estudei, fiz mestrado, doutorado e tals, e o tempo sempre foi esse preço a se pagar. Então pago, e ainda jogo o troco na caixinha fazendo um hai-kai. Aprendi cedo, por circunstâncias da vida, que tudo é mais difícil para quem tem origem pobre, então o lance foi arregaçar as mangas.

Daí que não adianta ficar com um ar blasé e reclamão: ninguém me entende, não há leitores, mimimi, bebebé, bobobó. Creio que, se algo não existe, estamos aí pra criar, não é? Por isso optei por trabalhar com formação de leitores, estou nessa há uns 15 anos, dois lados do balcão, tentando fazer a minha parte.

Trabalho de 9 às 18 para pagar o feijão com arroz. Mas escrever literatura é a sobremesa: aos sábados de manhã, faço as crônicas para o site Vida Breve. Ler e escrever outras coisas são durante a noite e quando sobra mais tempo, com pausas para meus games, filmes e séries para refrescar a cuca. Há uns anos trabalhei numa videolocadora e viciei nessas coisas, felizmente. Casei há pouco, e o silêncio da minha escrita está cada vez mais cercado de vida.
Sim, sempre que posso, visito escolas e eventos literários para conversar com os leitores e ver onde esses pequenos rios deságuam. Isso também me dá força para tocar o barco.

 

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. Tem mestrado e doutorado em Literatura na PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de locadora, professor, pesquisador de leitura e superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação. Trabalha na coordenação de projetos de incentivo à leitura. É autor do romance O próximo da fila (Record, 2015), do livro de poemas A musa diluída (Record, 2006), além de vários infantis e juvenis. É organizador e coautor das antologias Como se não houvesse amanhã (Record, 2010) e O livro branco (Record, 2012). É cronista semanal do site www.vidabreve.com. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

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