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Krishna Monteiro

Sou lento para a escrita. Produzo em média 1000 palavras por mês, sem me impor horários ou metas. Posso parecer indisciplinado, mas a literatura, para mim, está tão relacionada ao prazer que não conseguiria reduzi-la a códigos e rotinas de outras atividades, como se fosse um trabalho burocrático.

Encaro-a como instrumento de libertação contra aquilo que Max Weber e Karl Marx chamaram, respectivamente, de “gaiola de ferro” (normas da vida e sociedade que constrangem o homem contemporâneo) e de “alienação” (o ato de tornar alheia nossa vontade e pensamento, cedendo-os a outro). Ao produzir literatura, rompemos, ainda que temporariamente, esses constrangimentos. Criamos nossa própria narrativa, em oposição àquelas que nos são impostas pela família, pelas instituições políticas, econômicas, religiosas, pelo senso comum.

Embora produza pouco, penso a todo instante naquilo que estou escrevendo. Num personagem. Numa cena. Num enredo, símbolo, numa linha dramática. De certa forma, assim, a literatura é a principal atividade de minha vida. E, tão importante quanto o tempo destinado à escrita e reflexão, é o espaço reservado à leitura. Ler – em minha opinião – é tão ou mais prazeroso do que escrever. Não poderia produzir literatura sem o suporte e apoio do escritor que leio no momento. Muitas vezes, quando o fluxo da escrita se interrompe diante de um impasse ou problema na história, a solução surge pelas mãos e conselhos de Guimarães Rosa, Virginia Woolf, William Faulkner, Amós Oz, Issac Bábel.

Se não a encaro como trabalho, a literatura não deixa de ser ofício. E, como todo ofício, está sujeita a técnicas. Procuro sempre ler livros de criação literária em busca de aperfeiçoamento técnico. Presto atenção a críticas e resenhas. Muitas vezes, a crítica mais dura ajuda-nos a avançar, evoluir. Depois é deixar o texto dormindo na gaveta por algum tempo, revisá-lo, deixá-lo dormir novamente, e revisar, e pô-lo pra dormir, e revisar, dormir, até o dia em que se fecha o ciclo e o filho enfim desperta e está pronto para viver sua vida.

 

Krishna Monteiro nasceu em 1973, em Santo Antonio da Platina, no Paraná. Depois de graduar-se em economia e obter um mestrado em ciências políticas, ingressou na carreira diplomática, em 2008. Foi editor de textos literários da revista Juca – diplomacia e humanidades, publicada anualmente pelo Itamaraty, e cocriador do blog Jovens Diplomatas. Em 2010, tornou-se vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão. Morando pela primeira vez em terras estrangeiras, foi tomado por lembranças de outras paisagens e cenas de infância escondidas na memória, e começou a escrever contos, em parte inspirados em sua própria história, em parte inventados, que resultaram no livro O que não existe mais. Foi Cônsul Adjunto do Brasil em Londres e atualmente trabalha em nossa Embaixada na Índia.

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